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Monday, November 23, 2009

A Revolução de Alberto

Sabe aquele lance de mini flash-back gigante dos Normais? Pois é, não tem nada a ver com o que vou fazer agora. Na verdade, o que entra em cena é um FF de 17 anos e um texto escrito durante a pós de Jornalismo Literário de 2008. Um breve adeus à Carla de 11 anos e uma breve aparição da jornalista de 28. Espero que gostem do texto. As fotos são do colega Wesley Costa, do jornal Hoje.



Trótrótrótrótró. Sobre três engradados de coca-cola, um senhor de cabelos grisalhos e 1,60 m de altura arqueia os ombros para alcançar a tomada que fica atrás do freezer de tampa vermelha. Mãos diligentes e olhar atento, Alberto Cavalcante de Souza, 67, liga o liquidificador Walita e começa a encher o recipiente com gomos de pimenta de cheiro – que rodopiam, rodopiam e acabam por mesclar suas tonalidades de verde e amarelo. São pouco mais de quatro da manhã. Se algum vizinho apareceu para reclamar do trótrótrótrótró? Nada! Todos os concorrentes e clientes de Seu Alberto ainda estão na cama. Supõe-se. Suponho.


O sexagenário, entretanto, desde as 3h30, mantém-se em atividade. A postos no Mercado Central de Goiânia, Alberto começa os preparativos para fazer os quitutes que já lhe renderam até uma alcunha: “O Rei das Empadas”. A fama, demasiadamente repetida em matérias de jornais, nem de longe consegue retratar parte da essência desse homem. Que não é um simples vendedor de salgados. Tampouco um aficionado pelo mundo das artes – como denunciam as dezenas de fotos com artistas em sua banca. Alberto é pai. Ex-marido. Avô. Filho de um homem que trabalhou com Pedro Ludovico, fundador da nova capital goiana; um dos rebentos mais mimados por dona Joana. Goianiense de nascimento; carioca na alma. Companheiro. Um quase guerrilheiro...

Peraí? Um quase guerrilheiro? Exageros da autora à parte, é. No ponto comercial de seu Alberto, uma foto. O rosto, meio azulado. O fundo do quadro, branco. A imagem, o fotografado, o personagem? Bem, não te prometo uma empada em caso de acerto – claro, você vai descobrir ao longo do texto, bem como tantas outras peculiaridades da vida de seu Alberto, mas é que não posso ir revelando segredos alheios, assim, de bandeja, logo no terceiro parágrafo... Enfim, sem promessas de iguarias, espero ao menos propiciar uma leitura capaz de abrir o seu apetite, e não apenas no sentido literal...

*****

Cada um no seu quadrado

Pode ser que o transeunte mais desatento – ou o mais faminto, neste caso - que passe pela Rua 3, no Centro de Goiânia, se deixe seduzir por aqueles dizeres escritos com giz branco em uma lousa preta. “Pão de queijo + café = 0,80”. Um pedestre mais afortunado talvez seja convencido pela cartolina branca, letras vermelhas, adiante: “Salgado + Kuat = 2,20”. Agora, quem realmente conhece a região não acha dispendioso andar alguns metros para saciar a fome. O destino é um prédio cinza, três andares, com portão e detalhes na fachada amarelos. Maior e mais antigo da capital goiana, o Mercado Central, fundado em 1950, tem 6.787 metros quadrados de área construída. Mas é um espaço bem menor dentro dele que atrai um contingente considerável de consumidores durante todos os dias da semana, das 7 da manhã às 18 horas. Acertou. É a banquinha do seu Alberto uma das mais badaladas do local, que, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (Sedem), tinha 103 permissionários no mês de maio de 2008.

Num quadrado de três metros de largura por quatro de cumprimento, seu Alberto trabalha desde 1986 - antes, o mercado teve outras duas sedes: na Rua 4, onde hoje está o Pathernon Center, e no camelódromo do Centro. Em ambos, tal qual ocorre nos dias atuais, o senhor moreno de olhos miúdos garantiu o seu sustento vendendo empadas e pastéis; é certo que não com as linhas de expressão que atualmente tomam conta do seu rosto. Pelo contrário, era o ar da meninice que o acompanhava quando saía de casa, no Setor Vila Nova, para aprender com a mãe a se “virar” no mercado. Década de 1950 e dona Joana Hipólito de Almeida comercializava produtos hortifrutigranjeiros. Alberto, feito homem, entraria para o ramo de salgados.

Aconteceu assim: o sétimo dos dez filhos de dona Joana com o esposo Amâncio Cavalcante Sousa, Clóvis, tinha uma banquinha de pastéis. O irmão mais novo Alberto, o nono da “escadinha”, comprou o ponto.

- O valor eu não lembro, não. Deve ter mais de 40 anos, foi antes de eu casar. O mercado ainda estava lá na 4.

De “Só Pastel” para “Empada do Alberto”. Embora não exista letreiro oficial, todo mundo reconhece o nome fantasia, outorgado pelos próprios clientes. A transformação, que não excluiu a venda de pastéis, antes incrementou as opções do cardápio, foi possível graças à receita de uma senhora da cidade de Goiás, que ensinou o jovem a fazer o salgado mais famoso da terra de Cora Coralina. A mestre tem também uma banquinha no Mercado Central, praticamente ao lado da do seu Alberto. Se lá tem o mesmo movimento do que o da loja do ”pupilo”? Com a palavra, os clientes:

- É essa aqui, não é, a banca que você vem? - Pergunta uma moça, acompanhada de duas amigas, apontando para o ponto do seu Alberto.

Sinal de positivo feito por uma delas, dúvida dissipada, o pedido: duas empadas de frango e uma de bacalhau.

- Ô empadinha deliciosa! - Exclama outra jovem, pele morena, logo após receber o troco de seu lanche. A moça também esteve no local na primeira sexta-feira de junho deste ano, dia 6.

- Ah, seu Alberto, vai, conta o segredo...

- Na culinária, cada um tem um toque especial – faz diplomacia.

Então tá. Mas fui atrás desse “plus” que difere a empada dele das demais – só no Mercado Central são várias as banquinhas de salgado em um mesmo corredor.

*****

Santa, arruda e sinal da cruz na madrugada

A pequena movimentação que começa a tomar forma no interior da casa de muro rosa-pêssego e portão branco, localizada bem à frente de uma igreja adventista, no Setor Vila Nova, não consegue romper o silêncio da Rua 208. São três da madrugada, primeiro de julho. Vias ainda desertas, frio “suave” para o inverno, e escuridão que só não se esconde de fachos intrometidos ao cenário noturno. Mas que começam a surgir. Alberto Cavalcante acende a luz de seu quarto. Levanta da cama, onde na cabeceira três retratos enfeitam a parede e lhe lembram dos laços familiares. Atravessa a pequena sala de parede rosada, apinhada de quadros florais e de paisagens européias, e entra na suíte de Dina para tomar banho. Para os mais distantes, Sabina Cavalcante, 65, sua irmã caçula.

Da arara que acomoda suas roupas, a escolha do dia: calça jeans um pouco folgada, camisa pólo salmão e tênis branco da Penalty com rajadas em azul marinho na lateral. Seu Alberto não esquece os detalhes: prega um pequeno broche de Nossa Senhora Aparecida na camisa e esborrifa no corpo um pouco de Yves Saint Laurent. (Ele é apaixonado por perfumes. Segundo Dina, são dezenas de frascos).

- Alberto, quer que eu passe o spray no seu braço? – indaga Dina.

- Pode deixar; eu passo.

- Deu distensão (no direito), por causa do frio do freezer e do calor do forno - explica ela, em tom suave, quase maternal.

“Antes de a nossa mãe morrer, ela me pediu que cuidasse do Alberto, mesmo eu sendo dois anos mais nova do que ele. Ela tinha um carinho todo especial por ele, o caçula dos homens. Na verdade, posso ser considerada a terceira mãe. Tinha a Francina também, que cuidava da gente quando éramos pequenos e a mãe trabalhava no mercado.”

Minutos depois, ele pega o telefone branco sem fio.

- Bom dia. Por gentileza, minha filha, um táxi aqui na Rua 208, número 466, da Vila Nova. Por favor.

- Obrigado.

Não passa muito tempo até que o farol de uma Parati, da Rede Bandeirantes, ilumine o portão branco.

- Vão com Deus! Vou orar por nós - despede Dina.

Alberto pega com a irmã duas sacolas verdes e uma branca de plástico, que contêm verduras. São encomendas para a outra irmã, Tereza, que vai passar no Mercado Central.

No corredor do quintal, seu Alberto tira uma folhinha de arruda do vaso que está ao lado de outras dezenas de plantas, e a coloca na orelha direita. Antes de entrar no táxi, faz o sinal da cruz.

- Oi, companheiro. Bom dia.

- Bom dia.

- Vamos rodar - diz, bem humorado, um tom atípico para quem acorda às 3 da manhã. Há mais de 50 anos.

*****

Sabor apreciado até por Fernanda Montenegro

Dez minutos de viagem, R$ 8,90 de acerto, entrada do Mercado. Seu Alberto bate com o cadeado no portão amarelo para acordar o segurança.

Boa tática, a primeira vez que fui ao local de madrugada, para entrevistar seu Alberto, fiquei batendo palmas, bem leves, e chamando pelo seu Tião, o vigia daquele dia, 6 de junho. Claro, demorou bem mais para que notassem a minha presença.

Alberto cumprimenta Fabiano, o segurança de plantão, e segue para a banquinha.

- Olha! O meu primeiro cliente - brinca, ao se deparar com o gatinho preto malhado de branco, ainda sem nome, que há cerca de cinco meses o espera na porta do trabalho.

- Ele me viu chegando e já vem para cá - continua, antes de abrir a portinha do fundo, onde, no metal azul, há a inscrição “Ler é luz”.

“O Alberto sempre gostou de ler, sempre teve essa tendência. Já fez curso de inglês, francês. De nós todos foi o que mais teve gosto por essas áreas”, revela Vicente Cavalcante de Sousa, 77, mesmas feições, porém estatura maior do que os 1,60 m do irmão mais novo.

Já dentro da banquinha, Alberto deixa as sacolas – as encomendas para Tereza - na bancada lateral onde fica a máquina de passar pastel junto com um forninho Dako. Ajoelha no piso de azulejo branco, levanta as duas mãos e sussurra:

- Obrigado, Nossa Senhora Aparecida, por mais um dia, pela saúde, pelo trabalho. Abençoe todos aqui com paz, saúde e muita fé no coração.

Antes do batente, mais um ritual. Alberto pega um potinho de sal grosso e joga o produto no chão, do lado onde os fregueses se acomodam nos seis bancos de metal, estofados nas cores vermelho, verde e laranja. Há dias em que ele também coloca incenso de canela em locais estratégicos para aromatizar o ar. A explicação? Tem não. Aliás, a resposta está centrada na sabedoria popular.

- Já ouviu aquele ditado? - De poeta e louco...

Ah, só para constar. A banquinha de seu Alberto também tem plantas comigo-ninguém-pode e espada de São Jorge.

Início da labuta. Duas panelas grandes de alumínio no fogão industrial de quatro bocas, cuja porta do forno precisa ser sustentada por um cabo de vassoura; sacolinhas contendo frango desfiado e cebola retiradas do freezer. Alberto abre o armário debaixo da pia, pega uma faca, corta o saquinho e pó! – nunca fui boa com onomatopéias (basta reparar no início deste texto), mas foi mais ou menos esse o barulho que a cebola fez ao cair na panela.

Pimentão, alho com pimenta, cheirinho delicioso de tempero. Testemunha de toda a movimentação do senhor de cabelos grisalhos, o gatinho sem nome permanecia entre as grades amarelas fincadas na rampa que leva ao segundo piso do Mercado Central.

- Ele quer uma bolota de carne. Mas ainda não tem nada - explica Alberto, relógio preto redondo da Rado tirado do pulso esquerdo - eram por volta das 3h40 - e jogado na bancada lateral (há também, no ponto, uma bancada perto da pia).

E com passos curtos, porém firmes, mãos ágeis, porém delicadas, o comerciante imprime ritmo ao local de trabalho. Faz recheio e massa das empadas, prepara o trigo para o quibe, limpa a estufa, organiza o balcão de atendimento e... E também passa café para servir aos clientes, ao vigia, aos donos das outras banquinhas que ainda irão chegar, aos guardinhas das Casas Bahia - localizada próxima ao mercado, na Avenida Anhanguera - ou a algum (a) repórter que resolva aparecer no meio da madrugada para entrevistá-lo...

Pretexto para entrevista, aliás, não falta. Até o olhar mais incauto que passa pela banca de seu Alberto fica curioso ao se deparar com as dezenas de quadros que adornam o local. São dois blocos de arranjos (um mais ao fundo do ambiente), afixados no cano preto que perpassa o teto laranja. Tem recortes de matérias com Fernanda Montenegro, Cora Coralina e Glauber Rocha; fotos de Marilyn Monroe e Carmem Miranda; de políticos goianos (entre estes, Pedro Ludovico, fundador da capital e patrão do pai de seu Alberto); dos quatro filhos de Alberto (Juliana e Alberto Júnior, já falecidos, Paloma, 26, e Amâncio, 30); e de vários artistas, como Marília Pêra, Maria Fernanda Cândido, Bibi Ferreira, o cantor goiano Marcelo Barra e o maestro da Orquestra Sinfônica de Goiânia, Joaquim Jayme, que conheceu Alberto ainda menino, no mercado da Rua 4.

Em grande parte dos retratos, seu Alberto aparece ao lado dos atores e atrizes que admira. O mundo das artes, assim como o das empadas, é algo intrínseco à história desse homem. O comerciante já participou de diversas oficinas de teatro. Inclusive foi em uma delas, no Rio de Janeiro, que conheceu Fernanda Montenegro. A diva, junto com Jorge Amado, Zélia Gattai - que morreu em maio deste ano -, Lucélia Santos, entre outros, está no rol dos famosos que provaram o sabor das empadas de Alberto. Dourada em seu exterior, por causa da gema do ovo caipira utilizada antes de assar, e farta em recheio.

- Se não fosse vendedor de empadas, o que o senhor seria?

Breve pausa.

- O que eu seria? Estaria envolvido com artes cênicas. Seria ator, diretor, ou qualquer coisa assim.

- E quando começou essa paixão pelas artes?

- Ainda menino. Eu tive o prazer de conhecer Procópio Ferreira, prazer de conhecer a, a.. Já é a segunda vez que eu não consigo lembrar o nome dessa mulher; ela foi ex-mulher do, do... Vou lembrar o nome dela.

Com voz serena, ele prossegue:

- Tive o prazer também de conhecer Margot Fontaine na reestréia do Cine-Teatro Goiânia, vi Bibi Ferreira em Gota da Água. Sou apaixonado por artes cênicas, principalmente o teatro, acho uma coisa fantástica. Sabe por quê? Porque ali, no palco, as pessoas fazem tudo aquilo que fazemos e não gostamos de dizer que fazemos. O ator dá vida àquilo que a sociedade faz, e eu acho isso muiiiiito, muiiiito, muiiiiiito lindo, muito forte, muito bonito.

Quase no fim da conversa, que ainda enveredou por temas como literatura, família e relacionamentos:

- Ah, Antes que eu me esqueça, Cacilda Becker.

- O nome da...

- Atriz.

- Ah, bem que o senhor falou que ia lembrar...
*****

Continua abaixo:


Sunday, November 22, 2009

Che Guevara e seu Alberto


Ela poderia passar despercebida. Afinal, como tantas outras, ornamenta paredes, bancadas, estantes. Não há nada de espetacular. Nada de diferente. Uma simples imagem, difundida mundo afora e sem referências de laços com a vida de seu Alberto. Mas a foto disposta na bancada lateral da sala 332, perto de uma máquina de pastel, traz revelações inimagináveis. Lembranças de 1961...

Fim de uma tarde quente que judiou do goianiense. A meteorologia registrou máxima de 32ºC. Mas vá entender: ele, gringo, parecia não se importar. Pelo menos não o suficiente para abdicar da sua farda militar verde oliva. E da sua barba. Alheio às condições climáticas daquele sábado de agosto, falou com solidez a um pequeno grupo de jovens. Praticamente meninos, 20 anos, 20 deles reunidos em uma sala de aula da Escola Técnica Federal, localizada no Centro de Goiânia. Sim, eles preferiram ficar sentados em carteiras estudantis a aproveitar os momentos de lazer que o fim de semana, por ventura, lhes reservaria. Afinal, estavam diante de um visitante ilustre. De um encontro camuflado. De orientações históricas. Quarenta minutos? Não interferiria na folga deles. De modo algum. Renderia, na verdade, relatos fascinantes. De quem conheceu Che Guevara não somente por fotos, camisetas, bandeirolas ou diários. Mas que ouviu o espanhol do argentino, o espanhol do ministro cubano.

“Senti uma emoção de estar vendo uma pessoa que tinha ideais bem firmes e que a gente procurava se espelhar. Ele era uma pessoa carismática, muito atenciosa”, ressaltou seu Alberto, um dos jovens goianienses que assistiu a “mini-palestra” de Che na Escola Técnica Federal.

Eu, boquiaberta, ainda incrédula.

“O Che veio em Brasília receber uma condecoração e aí deu um pulinho até aqui em Goiânia. Coisa rápida”, continuou.

Após conferenciar com o sr. Janio Quadros, o ministro cubano "Che" Guevara foi condecorado ontem pelo presidente da Republica com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. A outorga da condecoração, aliás, está suscitando criticas ao presidente inclusive, pelo que se adianta, para a crise política de que é figura central o sr. Carlos Lacerda. Em entrevista à imprensa, Guevara falou sobre a posição assumida pelo Brasil em Montevidéu: "Foi sem duvida o maior fator para que Cuba fosse tratada na Conferencia de Punta Del Este como país americano". Manifestou tambem "o testemunho do agradecimento do governo cubano pela posição do Brasil". Depois de ter almoçado com o prefeito de Brasilia, Guevara partiu rumo a Havana ontem, às 15 horas.


(Folha de São Paulo. Domingo, 20 de agosto de 1961.



Neste texto foi mantida a grafia original)

Partiu para Havana, mas passou pela capital de Goiás. O que os jornais não noticiaram foi relatado a mim por seu Alberto.

- Depois dessa reunião, o Che veio ser padrinho de casamento de uma família no Setor Universitário. Não sei se no civil ou religioso. Sei que ele foi padrinho; isso é uma certeza

Pronto! Se já era demais pra minha cabeça o Che ter vindo em Goiânia, imagine o fato de ele ter sido padrinho de casamento no Universitário. Che de terno? Será?

- E como ele estava? De terno?

- Não sei, não fui no casamento.

- E como o senhor ficou sabendo da cerimônia?

- Através dos amigos que a gente tinha naquela época, pessoas que gostavam das idéias revolucionárias do Che.

- Ah! E nessa reunião política que o senhor participou, o que o Che falou?

- Ele falou muito sobre a maneira de guerrilha, mas não citou revolução armada, não. A intenção do Che era tirar esses comandantes que estavam há muitos anos no poder e não faziam nada. Ele queria dar igualdade para toda a sociedade, para todo o Brasil. O modo era difundir os ideais e aumentar o número de simpatizantes para se chegar a uma mudança.

- Quem estava lá?

- Tinha muito estudante da Escola Técnica, muito simpatizante, nome eu não sei te passar.

- Não tinha ninguém que hoje é conhecido politicamente?

- Não, tinha duas pessoas que eram conhecidas, mas na época da revolução sumiram com eles.

- Quem eram?

- Zé, a gente chamava de Zé, sabe. Sumiu no golpe de 64.

- Como o senhor ficou sabendo que o Che vinha para esse encontro político em Goiânia? Foram os amigos?

- Foi, foi, amigos do partido (Partido Comunista Brasileiro - PCB).

- E o senhor participava dos encontros do PCB?

- De alguns, mas eu não era membro. Estive presente, por exemplo, quando o Luis Carlos Prestes veio aqui na Vila Nova.

Prestes? Acho que fiz cara de boba novamente...

- Antes do Che, ele foi um dos que mais divulgou o comunismo. Era aqui pertinho de nossa casa, e eu ia. Mas eu era muito jovem, eu não tinha uma clareza do que eu...

- Quantos anos?

Eita! Interrompi a fala do meu entrevistado. Péssimo hábito de jornalista...

- Eu devia ter uns 12, 13 anos.

- Quantas vezes o Prestes veio em Goiânia?

- Que eu tenho conhecimento, umas duas vezes. Foi na casa do Anísio, um senhor comunista que morava na 10ª Avenida.

Não sei você, mas eu fiquei até um pouco sem fôlego enquanto conversava com seu Alberto. E pensar que um simples retrato desencadeou a descoberta, para mim inédita, de que Che esteve em Goiânia. A imagem estava lá: o rosto do revolucionário meio azulado, a boina, o cavanhaque, tudo em primeiro plano num pequeno quadro de fundo branco. O objeto, encostado na bancada lateral do ponto onde seu Alberto se tornou o Rei das Empadas...

*****
Hum! Cheirinho de tempero no ar

06h05. Telma, a funcionária de Seu Alberto responsável por tirar a pele, cozinhar, desossar e desfiar 53 quilos de frango, além de cortar três quilos de cebola, dois de pimentão e quatro de repolho diariamente, chega ao mercado. A jovem de 28 anos cumprimenta o patrão, coloca um avental branco por cima da blusa roxa que vestia, e uma touca para acomodar os cabelos.

- Você me faz um favor? - Pergunta a ela.

- Corta o queijo para mim.

Ela na pia, com o queijo. Ele no fogão, mexendo a panela. Um barulho repentino - que eu confesso não ter identificado de onde veio. Motivo suficiente para seu Alberto fazer graça, mesmo com o tom de voz baixinho que lhe é peculiar - muitas vezes é necessário, inclusive, inclinar os ouvidos para compreendê-lo:

- Você veio nesse avião, Telma?

Ela sorri discretamente. As horas seguem, os afazeres continuam, um cheirinho gostoso de hortelã, proveniente da massa do quibe, invade o local. Chega Silvana, não chega Reginaldo, chega Amâncio no lugar de Reginaldo, chega Reginaldo, não chega Marli, e também não chega ninguém no lugar de Marli. Alberto trabalha com o apoio de quatro funcionários - Telma, Silvana, Marli e o pasteleiro Reginaldo - e dos filhos Amâncio e Paloma, que cumprem expediente à tarde, quando o pai deixa o mercado, depois das 13 horas. Naquele primeiro de julho, Marli não trabalhou por problemas pessoais. Reginaldo tinha avisado que provavelmente faltaria porque estava fazendo uns exames. Amâncio foi cobrir a vaga de Reginaldo, que, às 8h30, apareceu no mercado.

- Ah, olha lá pai, ele tá até bronzeado – não titubeia Amâncio, referindo-se à cor da pele de Reginaldo.

Seu Alberto olha para o funcionário, com ele há oito anos, o mais antigo dos quatros, e sorri. Mas um aviso no balcão de atendimento dá indícios de que o relacionamento entre os dois anda instável. “Precisa-se de pasteleiro com urgência”, diz o cartaz, pregado no local na sexta-feira, 27 de junho.

Contratempos à parte, é dia de vender. Dez minutos antes de o mercado abrir, 06h50, Alberto veste um jaleco branco com botões pretos, parecido com esses que os chefs de cozinha utilizam. A indumentária, um pouco amarrotada, vem com o nome do comerciante bordado no lado esquerdo do peito e com as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos nas mangas.

O primeiro cliente chega e pede dez empadas para levar. É só o começo. Diariamente, segundo as contas do seu Alberto, são vendidas mais de 900 empadas - a preferência é pela de frango (R$ 1,80), seguida pela de camarão, bacalhau e, por último, palmito (todas essas R$ 2,50). Pastéis, são cerca de 300 (R$ 1,80). Já o número referente às bebidas é repassado por Reginaldo. São seis caixas de coca 290 ml (com 24 unidades cada), uma caixa de fanta 290 ml, uma caixa de coca light 290 ml, 30 unidades de guaraná caçulinha, 24 unidades de coca 600 ml e 24 unidades de coca zero 600 ml.

Para conseguir atender a demanda de fregueses, o ritmo da equipe tem de seguir sincronizado por mais de dez horas. Telma desfia o frango e cuida da salada - novidade trazida por seu Alberto depois que observou que o item fazia sucesso na banquinha de japoneses. Marli e Silvana recheiam e desenformam as empadas. Reginaldo fica por conta dos pastéis, quibe e da reposição do refrigerante. Amâncio e Paloma cuidam do atendimento no período vespertino. E Alberto acorda às 3 da manhã para deixar tudo preparado - ele está no mercado, em média, uma hora e meia antes dos donos das outras lojas -, fica atento aos pedidos - e confia nos clientes, já que não entrega comanda -, dá troco, arruma a estufa e por aí vai... Sempre em pé.

- Já falei para o médico que este é meu exercício físico... Mas ele diz que não vale, que eu tenho de fazer um de maneira ordenada...
*****
Inspiração para a vida

Pode até não parecer, mas a forma como seu Alberto se posiciona no balcão – ele encosta o cotovelo em cima da estufa e fica de perfil – é estratégica. Desse modo, consegue enxergar, de longe, os clientes que ainda estão dobrando o corredor que dá acesso à área de alimentação do mercado. Olhar fixo.

- Tem que ser assim para eu atender todo mundo, de forma rápida...

- Oi, seu Alberto, cheguei um pouquinho atrasada, diz uma moça de blusa rosa, R$ 2 na mão.

Antes mesmo de fazer o pedido, seu Alberto lhe entrega o pastel de sua preferência.

- Bom dia, é outra cliente jovem, loira, professora.

Alberto lhe serve a empada de frango.

O fluxo não cessa. Professores, estudantes com cadernos nas mãos, corretores de imóveis, crianças pequenas com mães, meninos arteiros com pais, engravatados, publicitários. O aglomerado em frente ao número 332 contrasta com os espaços vazios das bancas vizinhas. Seu Alberto cumprimenta a todos - com um olhar discreto ou um sorriso arrebatador -, entrega o refrigerante sem a tampinha para o freguês, guarda o capacete de motoqueiros, fica sério, fica em silêncio. Ele diz apreciar a ausência de sons.

- É quando aproveito para conversar comigo mesmo.

Segredos. Alguns impenetráveis. Outros dolorosamente superados. Uma separação conjugal (embora não sacramentada no papel). A perda do filho Alberto Júnior em um acidente de carro (o menino tinha dois anos e estava, no automóvel, sentado no colo do pai). A morte da filha mais velha Juliana, aos 31 anos, de hantavirose, doença transmitida por ratos silvestres – a jovem chegou a fazer o curso superior que Alberto ansiava para si próprio, Psicologia. (Ele parou de estudar no primeiro ano do científico). Se não consegue seguir à risca às ordens médicas de fazer exercícios regulares, pelo menos dos conselhos para a alma ele parece não se desvencilhar.

“Esforce-se pela felicidade, para ser amado e amar e, mais importante, para adquirir paz de espírito e serenidade.”

Na frase, presente no best-seller O maior vendedor do mundo, de Og Mandino, um dos livros preferidos de seu Alberto, a inspiração para a vida. A revolução. Que um jovem admirador de Che, aos 20 anos, não sabia ser tão simples de fazer.

Tuesday, November 03, 2009

Mais sobre "Despertada pela Vida"

Os óculos grandes davam um peso ao rosto fino e magro. Ela fingia que não se importava. Mas já havia deixado uma brecha romper no valor de sua autoimagem. Magricela. Feinha. Era assim que Carla se via. Com óculos. Quando os tirava, entretanto, descobria, mesmo que de forma efêmera, sua beleza. Escondida, entulhada por comentários na infância que a fizeram acreditar numa realidade que não existia. Não, não conseguiram sufocá-la. A libertação começara paulatinamente. Aos 11 anos. A escrita, a reinvenção, a primeira obra – que para ser minha mesma, não poderia terminar completa. Por enquanto.

“Despertada pela vida” me fez sentir o prazer de caminhar pelas veredas da imaginação. Cláudia, a personagem principal, era bela. Mas pobre. Não sei por qual razão, mas achava que seria bom colocar um pouco de sofrimento e dificuldades na história da jovem. Talvez, porque assim a superação dos desafios, a virada, a guinada, teriam mais valor. Não sei. Pode ser. Pode não ser. Não sei o que pensava Carla aos 11 anos. Ou não me recordo. Ao certo.

Ah, mas tem uma coisa que volta nitidamente. Carla queria dedicar o livro à avó materna, Lucy Henriques de Lacerda. Por isso, escrevia rápido rápido rápido rápido rápido rápido. Ela não tinha tempo para vírgulas. Não queria que a morte chegasse antes que seu livro na Rua Floriano Peixoto, em Uberaba (local onde sua avó ainda mora). Tinha que terminar logo. Mas eram tantos os empecilhos - os reais e os da mente... Minto. Não eram muitos, não. Acho que, na verdade, era a cabecinha de Carla que os criava e os fomentava constantemente. Era como se ela tentasse se sabotar. Inconscientemente.

Mas pelo menos de um percalço concreto, nesta fase inicial de produção, ela se recorda. Enquanto subia e descia as escadas de carpete do sobrado da Rua 15 e dava voltas ao redor da casa de sua avó paterna, atrás da tão propalada inspiração (se lembram do post anterior?), pessoas próximas começaram a querer dar sugestões na obra. Falavam para colocar num capítulo um lance de um namoro assim e assado. Pra falar do Guns N’ Roses (?!). Para citar um encontro entre dois enamorados na Praça do Sol. E etc. Carla até pensou em inserir tais episódios. Mas eles soavam fake – embora ela nem soubesse que essa palavra existia. Não condiziam com sua realidade, com a forma como via o mundo. Decidiu que era melhor abortar a ideia. Retirou as sugestões alheias. Rasgou parte do chamex. E tornou a reescrever “Despertada pela Vida”. Agora num caderninho de arame, de capa verde, que permanece guardado em uma caixa de sapatos e com algumas folhas ainda em branco...

Continua

Sunday, October 11, 2009

A dona da palavra

Antes de reinaugurar meu blog (minha linguagem tá mesmo viciada em termos político-administrativos, rs), pensei numa série de comentários para explicar o retorno ao mundo virtual. Coisas assim: detalhar os gêneros que iria utilizar, a função, o objetivo, que tipo de textos iria colocar, como iria separar os posts por tema e falar de Jornalismo Literário... Só que estava enrolando demais para começar a fazer isso. Creio que cerca de um mês. Mas as idéias brotam. E num ritmo bem maior do que minha capacidade de querer explicar as coisas. Daí, resolvi deixar formalismos de lado e abdicar de ter um plano B. Não sei aonde isso vai parar. Não sei se vai ter final. Não sei se vou mudar a rota. Não sei, e nem calculei, os riscos. E quer saber? Acho que isso vai ser o mais interessante de tudo. Aos que decidirem me acompanhar na jornada, boa leitura!!!


Carla tinha 11 anos. E queria escrever. Dos detalhes que acompanham o momento da decisão, pouco se lembra. Mas algumas reminiscências despontam. Ela se recorda do lugar: a casa da avó paterna, num sobrado da Rua 15, no Setor Oeste. Do ano: 1992. De algumas particularidades: acabara de se mudar com a família de Brasília para Goiânia. Estavam ainda procurando apartamento para morar. Por isso, a hospedagem passageira na casa da avó. E Carla gostava de ficar rodeando o quintal daquele sobrado. Pensando na vida. Pensando na vida. Pensando... em ser escritora!

A ideia veio a galope mesmo, sem avisar e nem pedir licença. O roteiro, também rapidamente, saltou da imaginação para umas folhas chamex que encontrou. Começou com o título:

“Despertada pela vida”.

O nome da personagem principal:

Claudia, 11 anos (coincidência a protagonista ter a mesma idade da autora?)

O local:

São Paulo (Carla não conhecia a cidade, mas tinha um feeling de que seria uma boa escolha)

O argumento, a sinopse, o fio da meada?

Uma pré-adolescente que começava a descobrir os segredos da vida: mudança do corpo, frustrações, namoro, alegrias, saída da escola, começo de vida profissional. Consciência que nascia e mostrava o início da odisseia em que entrava definitivamente: a VIDA.

Curiosa que era, Carla foi pesquisar onde poderia estudar sobre o assunto: queria fazer faculdade de escritor. De escritora, aliás. Imagina qual não foi a decepção da menina ao descobrir que não existia o curso que queria fazer. Como assim, não tem faculdade de escritor? Como é que se faz para aprender a escrever então? Não se faz, respondiam. Escreve.

Foi o que fez: continuou com suas folhas chamex e uma caneta bic azul. Gostava de escrever na mesa do quintal, que era coberta por um forro bege meio plastificado, estampado com umas folhas secas. Ela não se esquece desse forro. E de que como gostava de escrever ali: sozinha, contemplava as flores e sentia o vento. Ali, Carla materializava anseios, desejos, expectativas. Se tornava real.

Continua...