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Monday, November 01, 2010

Haiti

Já que estou nesta onda de retrospectiva, segue matéria sobre o Igor e a Jak, casal boníssimo que passou 15 dias no Haiti, no início deste ano, prestando ajuda humanitária às vítimas do terremoto.  A reportagem foi publicada na edição de março da Revista Fórum, de São Paulo. As fotos são de Igor Almeida e Mário Júnior.



O AUXÍLIO DEPOIS DO CAOS


Por Carla Lacerda

Eles ainda tentavam se acostumar com a realidade encontrada em Porto Príncipe, mas já na primeira noite na capital haitiana, devastada por um terremoto no dia 12 de janeiro, a adrenalina foi a mil. Eram mais de duas da madrugada quando o casal Igor Almeida Machado, de 28 anos, e Jakellyne Kelly Bueno de Oliveira Machado, de 24, acordou com uma multidão de mais de 3 mil pessoas correndo em direção ao local onde estavam acomodados – na verdade, o que sobrou de um prédio da polícia, que ficava em frente, a apenas 50 metros, dos escombros do Palácio Presidencial.

Da laje da edificação, onde montaram acampamento, Igor tentava entender o que acontecia. Ou o que estava prestes a acontecer. Ele e a esposa haviam saído de Goiânia no dia 27 de janeiro para ajudar as vítimas da maior tragédia natural ocorrida no Haiti. Estavam junto a mais oito pessoas da Jovens com uma Missão (Jocum), organização internacional que tem base em mais de 170 países e desenvolve diversos projetos sociais. E, agora, se viam numa situação pouco usual.

“Todo mundo acordou na mesma hora. Assustados, ainda meio zonzos, olhávamos uns para os outros. Procurávamos armas nas mãos deles”, relembra Igor, ao relatar que o aglomerado de pessoas se aproximava cantando um hino em crioulo. O medo, vívido principalmente pelos relatos de saques e violência que ouviram antes da viagem, não impediu que parte dos voluntários descesse para se encontrar com grupo. A esposa de Igor, mais conhecida como Jak, também integrou a comitiva. No braço, empunhava a filmadora, que marcava a data do episódio: domingo, 31 de janeiro.


Wednesday, September 08, 2010

Making of - Sobreviventes do Césio em formato JL

Foi realmente um desafio tornar a escrever sobre o acidente com o césio 137. Da primeira incursão no tema, em setembro de 2007, lembro-me da intensidade das entrevistas – “como elas mexiam comigo” -, do meu envolvimento com os personagens e da dúvida que insistia em me atormentar. “Eu estava fazendo jornalismo ou contando histórias? Carla, Carla, os outros jornais não estão cobrindo dessa maneira. É melhor você ir atrás de dados mais técnicos, números, pesquisas”, enfatizava o meu ego (no sentido que Jung dá ao termo) toda vez que eu teimava em nadar contra a corrente da pirâmide invertida. Mas o respaldo que tive do meu editor na época me fez seguir adiante – hoje posso dizer que, usando os conceitos da Jornada do Herói, ele foi um grande aliado. Ou talvez o guardião do limiar. Foi preciso passar por este ‘teste’ para adentrar num mundo ainda desconhecido, mas que se aproximava de mim. Em menos de cinco meses, eu entraria na aventura: conheceria o mundo do Jornalismo Literário.

Como foi bom descobrir novas possibilidades e perceber que podemos sempre trilhar um caminho de aprendizado e de aperfeiçoamento. Saber que histórias de vida podem, sim, fazer parte dos relatos jornalísticos. Que leituras como Gay Talese e Eliane Brum nos inspiram a ter criatividade. Que um cara chamado Jonh Hersey, com um ponto de vista diferenciado, fez “a matéria” do século 20, capaz de gerar uma faísca do pensamento produtivo – segundo especificações do psicólogo Dante Moreira Leite - na sociedade. Narrativa de transformação, jornalismo de transformação, jornalista em transformação.

Com todo o instrumental, dicas de leituras, conselhos, textos, “terapias coletivas” (rs) oferecidos pelos professores da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) foi possível iniciar a transposição de obstáculos para se alcançar um jornalismo de profundidade. Durante o percurso, um estímulo do professor Edvaldo Pereira Lima: retomar o assunto do césio, amparada nos recursos do JL.


Sunday, August 15, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida na mente

Depois do desastre radioativo, Wagner Mota Pereira “virou cigano”. Morou no Parque Ateneu, em Goiânia, em Anápolis (levou um irmão para tratar de esquizofrenia na cidade), Pirenópolis (município onde seu pai mora), e novamente Anápolis, onde está desde 2005. “O que me sustentou psicologicamente foi ficar longe das lembranças do acidente”, revela o homem de 40 anos que, no olhar e no jeito, ainda carrega resquícios daquele menino franzino de 19 anos.

“Mas hoje vi que fui bobo de ter ‘corrido’ das pessoas. Porque se a minha cabeça ficou legal por um lado, por outro me prejudicou. Mas eu não tinha estrutura naquela época. Eu só tinha 19 anos! E ainda tive de lidar com o fato das pessoas acharem que eu era o culpado”, desabafa.

Wagner continua: “E aí veio o problema nas mãos (a esquerda com quatro dedos atrofiados e um amputado) e no pé (o esquerdo ficou lesionado). Eu já era tímido, e com esse defeito físico, aumentou o meu isolamento. Eu tinha vergonha de comer num restaurante, por exemplo. Mas eu podia ter virado o jogo, né?”


Monday, August 02, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida no corpo - ainda parte II

MAL ESTAR E ISOLAMENTO

Cheguei em casa exausto depois de pegar aquela peça pesada de chumbo e tentar desmontá-la com o Roberto. Fui descansar. Tentar, porque comecei a passar mal naquele domingo mesmo, dia 13. Vomitei, tinha dor de cabeça, começaram a surgir uns pontinhos na minha mão que pareciam mordida de muriçoca. Deve ser intoxicação alimentar por causa daquela manga verde com sal e da água de coco que tomei.

Uns três, quatro dias depois, não me lembro ao certo, uma de minhas irmãs me avisou que o Roberto também estava doente. Eu tinha melhorado um pouco. Fui visitá-lo. Ele perguntou se eu podia vender a peça em um ferro velho da Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Fui, conversei com o dono e fechei o negócio.

Mais tarde, com a ajuda do Eterno – um dos funcionários do Devair –, peguei a peça na casa do Roberto em um carrinho de papelão. Não me recordo da quantia recebida, mas sei que não era muita coisa, não. Na época, eu estava tentando ser motorista da antiga Casa do Colegial. Mas voltei a passar mal. Fiquei ruim mesmo uma semana depois que tive contato com aquela peça. Fui para um hospital da Rua 5, no Centro, e depois para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT). Estava internado com pacientes comuns, médico nenhum ainda sabia o que eu tinha.


Wednesday, July 21, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida no corpo - Parte II

Wagner Mota Pereira / Crédito: Demian Duarte

 O CONTATO

- Deus, quero te conhecer. Quero te ver como os discípulos te viram. Se for preciso, estou disposto a passar por um sacrifício. Quero ser provado e aprovado.

Quando disse tudo isso, não imaginava o que estava por vir. Sete, no máximo 15 dias após este pedido, o acidente aconteceu. Era domingo, 13 de setembro e eu reformava o piso do meu barracão junto com um pedreiro – morava na Rua 63, com minha esposa e enteada de 4 anos, no fundo do lote da minha sogra. Por volta das 7 horas, o Roberto apareceu.

- Achei uma peça de chumbo nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. Vamos lá ver.

- Tô trabalhando, Roberto.

- Vamos, Wagner. Pode ser que esse material dê algum dinheiro.


Saturday, July 17, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida na Alma - I Parte

Depois do livro e durante a pós-graduação em Jornalismo Literário, concluída em 2009, resolvi fazer uma nova reportagem sobre as vítimas do acidente com o césio 137. Desta vez, escolhi 3 personagens centrais para dissecar o episódio que marcou a história de Goiânia. Agora, deliberadamente ciente das técnicas narrativas que poderia usar, amparada nos recursos e princípios do JL, e tendo como norte “Hiroshima”, de John Hersey – obra que ainda não conhecia quando da produção de “Sobreviventes do Césio”. Decidi ir mais fundo, ousar mais, aprimorar o trabalho...

Pois bem: a grande-reportagem que vocês passam a conferir a partir de hoje, 17 de julho, foi escrita em dezembro de 2008 (um ano após o lançamento do livro), está dividida em três tempos – presente, passado e presente – e será publicada em partes – até para não cansar você, leitor. Ao final, divulgo também um making of contendo particularidades da produção e detalhando os recursos de JL utilizados. Espero que gostem do resultado!

Sobreviventes do Césio 137

FERIDA NA ALMA

Crédito: Demian Duarte
Lourdes das Neves Ferreira

Na casa que há um ano (2007) evocava fortemente lembranças de um período turbulento na vida de Lourdes das Neves Ferreira, 56, mudanças recentes na sala de estar tentam velar um passado que não se dissipa, não se esvai. Fotos guardadas, reorganizadas, trocadas de lugar. Mas as memórias permanecem. E machucam. “Esquecer, esquecer não tem como. Por isso procuro sempre manter a mente ocupada”, revela a senhora que há 20 anos mora no Setor Cidade Satélite São Luiz, em Aparecida de Goiânia, município da Região Metropolitana. Hoje, sozinha. Sem o marido, sem uma das filhas e sem esperanças de uma vida melhor. Esperanças que faziam parte de sua rotina em 1987, quando vivia com toda a família na Rua 6, do Bairro Norte Ferroviário, em Goiânia. O lar foi derrubado por um minúsculo pó azul. Uma sobrevivente. Do maior acidente radioativo ocorrido em uma área urbana no mundo. Sobrevivente do césio 137.

Dona Lourdes é a mãe da menina que virou vítima-símbolo da tragédia, a pequena Leide das Neves, morta em 23 de outubro de 87, com apenas 6 anos, pelos efeitos da radiação. Tem outros dois filhos, Lucélia, 37, e Lucimar, 35, que, agora adultos, têm sua própria família – ou tentam ter. O marido, Ivo Alves Ferreira, morreu em 2003, de insuficiência respiratória. Foi ele quem levou o pó do césio para casa, após uma visita ao irmão Devair Alves Ferreira, que havia comprado uma peça de chumbo há poucos dias. Não sabia Di, como era conhecido Devair, que o objeto era parte de um aparelho utilizado para tratamento de câncer, no qual estava acoplada uma cápsula da substância radioativa. Muito menos suspeitava que o artefato tinha sido retirado de uma clínica desativada no Centro de Goiânia, o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), hoje o prédio do Centro de Convenções da capital. E também não imaginava que existia um órgão federal chamado Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), responsável pela fiscalização de material radioativo no País, mas que não supervisionava o local há cerca de dez anos.


Tuesday, February 23, 2010

Desafios na vida de um tenista

Depois de mais de um mês, volto a atualizar o blog. E como estou na fase saudosista de matérias esportivas, área pela qual sou apaixonada, segue a entrevista exclusiva que fiz com Flávio Saretta no fim do ano passado. Em tempo: a matéria foi publicada na revista “O Country”. As fotos são de Rodrigo Teixeira.


Até nos olhos está estampada nitidamente uma das grandes paixões do ex-tenista Flávio Saretta. Verdes, eles não destoam da cor do time do coração do atleta, o Palmeiras, que passou a ser sua segunda casa desde outubro de 2009. O paulista de Americana, que chegou a ser o 44º do mundo no ranking da ATP, conta nesta entrevista exclusiva como foi ter de largar as quadras aos 29 anos por conta de uma lesão. Fala também sobre seu novo desafio como professor das categorias de base do Verdão e discorre sobre outros assuntos, como início de carreira e Olimpíadas do Rio em 2016. O bate-papo ocorreu no bar do tênis do Country, no dia 4 de outubro, quando Saretta visitou o clube para inaugurar quatro novas quadras de saibro. Confira os melhores trechos:


Tuesday, January 12, 2010

Vale a pena ler de novo! Pelo menos é o que a autora pensa...

Uma retrospectiva diferente. Não de fatos, metas ou objetivos alcançados. Mas de textos. Matérias. Narrativas. Tudo o que escrevi até agora, prestes a completar 29 anos, e que acho legal republicar. Ao mais incauto leitor, o aviso: muita coisa está longe de ser uma “Brastemp”. Mas, nem por isso, os textos que seguem agregam menos valor. Não para mim. Todos eles têm um “quê” de especial. Talvez porque abordam um tema que gosto muito. Talvez porque me forçaram a superar medos. Talvez porque marcam minha estreia e primeiros anos em redação. Enfim, as razões seriam muitas... Melhor é acabar com este lenga-lenga de comercial e colocar logo o “Vale a pena ler de novo!” pra rodar.

Comecemos então pelo HOJE Retrô. Dois anos na empresa me renderam boas pautas, bons amigos, coberturas inusitadas, tombos devidamente registrados pelo colega Demian Duarte, risadas gostosas com Selma Cândida, superação, elogios, frustrações, puxão de orelha, publicação de um livro e muito mais. Pra quem se aventurar...

O brilho dos goianos no Rio

(Matéria publicada no HOJE no dia 3 de agosto de 2007.
Apaixonada pela área esportiva, me senti presenteada com a pauta do Pan. Aliás, todas as matérias em que tive a oportunidade de ‘caminhar’ por campos, pistas e quadras – nem que seja de maneira virtual - me arrebataram. A reportagem abaixo traz um breve perfil de três destaques goianos no Pan do Rio, realizado em 2007.
No registro fotográfico de Selma Cândida, eu com o medalhista de bronze de tae kwon do, Leonardo Gomes. Sim, eu sou repórter tiete, rs!)





Nos últimos 15 dias, os goianos aprenderam a torcer por eles. Não duvide. Rituais se repetiram pelas milhares salas-de-estar espalhadas pelo Estado. Olhos vidrados na TV, caretas, gestos, pedidos de silêncio - tem gente que adora incomodar quando começa alguma partida esportiva. Mas você driblou o obstáculo. E os representantes de Goiás, os adversários. No domingo que marca o fim da 15ª edição dos Jogos Pan-americanos, o HOJE dá a oportunidade para você, leitor, conhecer mais do que apenas os nomes dos atletas goianos que subiram ao pódio no Rio. Vai, já pode dizer que é íntimo dos campeões. Afinal, depois de ler as linhas abaixo, não vai ter história (pelo menos de quatro desportistas) que fique no anonimato.

“NÃO GOSTO DE DEIXAR VÍNCULOS PARA TRÁS”

Carismático, patriota, bairrista. Não esqueça de acrescentar esses adjetivos ao falar do lutador de tae kwon do Leonardo Gomes, medalha de bronze na categoria acima de 80 quilos. Com 24 anos e dezenas de títulos, ele faz questão de manter os laços com a terra que o criou. Ele treina em Goiânia - e olha que Léo já perdeu as contas do número de convites recebidos para ir para São Paulo ou Paraná, locais onde a luta tem tradição. “Sou muito família, não gosto de deixar vínculos para trás”, diz, embora admita que pode deixar Goiás nos próximos anos para sedimentar o sonho de participar de duas Olimpíadas. Enquanto não muda de cidade...

... Léo aproveita o aconchego do lar, um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro no Jardim Esmeraldas, em Aparecida de Goiânia. Há 19 anos ele vive no local com o pai - seu Benedito Gomes, funcionário da sorveteria Beija-Frio -, a mãe - dona Olinda Guimarães, que não se cansa de ‘cobrar’ dos filhos organização na casa - e o irmão mais velho, Rodrigo, com quem divide o quarto. Dividia. O primogênito casa esta semana e o lutador vai ter de encarar a ‘arrumação’ do cômodo sozinho. Mas para quem passou por dois adversários com o joelho lesionado e saiu com um bronze - no primeiro confronto no Pan, contra o venezuelano Luis Noguera, Léo rompeu o ligamento cruzado anterior direito -, o desafio doméstico pode também ser superado. E sem traumas.

TRAJETÓRIA - Apesar de raízes fincadas em Aparecida, Leonardo Gomes também tem histórias para contar do bairro Alto da Glória, em Goiânia. Foi lá, na Escola Municipal Izabel Esperidião Jorge, que o jovem concluiu a 4ª série (atualmente, ele está com o curso de Fisioterapia trancado na Universo). Também no setor, por influência do primo Edgar Guimarães, Léo começou a lutar tae kwon do na Academia Master. Os treinos iniciais duravam uma hora e ocorriam de segunda a sexta-feira. “No começo, era só por diversão”, confessa.

Entretanto, em 1995, um ano após ser apresentado ao esporte, o garoto de 12 anos mostrou garra de campeão. Durante o Campeonato Brasileiro Infantil, realizado em Belo Horizonte, Leonardo conquistou o bronze. Detalhe: ele lutou cinco graduações acima da sua. O goiano estava na faixa verde e se inscreveu para a vermelha. Ousadia e início de uma trajetória vitoriosa. No caminho, percalços. Em 96, Leonardo interrompeu os treinos por causa das condições financeiras. Resolveu, então, jogar futebol. No Goiás, ficou três anos até chegar ao time juvenil. Mas viu que não ia ter futuro com a bola.

Na mesma época, em 99, seu primo que o iniciara no tae kwon do, Edgar Guimarães, retornou de um treinamento que fizera nos Estados Unidos e comprou a academia Master. Leonardo voltou a lutar; tinha agora as despesas pagas. Os resultados foram sucessivos: em 2002, entrou na seleção olímpica; em 2003, ouro nos Jogos Sul-Americanos; 2004, prata no Mundial Universitário; 2005, sexto lugar no Campeonato Mundial, em Madri; 2006, bronze no Korea Open e bicampeão do Pan-americano de tae kwon do, na Argentina; 2007, bronze no Pan do Rio.

Mas estas não foram as únicas conquistas - o quadro de medalhas na sala de visita do goiano ainda não está completo (junto com as nacionais, ele pretende montar um mural com as internacionais, que, por enquanto, estão aglomeradas ao lado de troféus no quarto do esportista). Mais do que honrarias, entretanto, as lutas e títulos renderam a Leonardo um aprendizado de superação. Ele chegou a vender rifas, a bicicleta e até o próprio carro para participar de competições. Não desistiu. Saiu vitorioso. Mas é duro ao cobrar apoio para os atletas. “É preciso estrutura para competir. Me entristece a falta de apoio, mesmo quando mostramos resultados”.

“É PRECISO TOCAR A VIDA”

Essas meninas... Sim, elas têm muita coisa para falar. Histórias curiosas, relatos tristes. Mas é com um sorriso no rosto que as irmãs Clemilda Fernandes (bronze na prova de contra-relógio do ciclismo no Rio) e Janildes (prata em Santo Domingo e bronze em Winnipeg) dão detalhes sobre suas trajetórias. Filhas de um carpinteiro e de uma auxiliar de limpeza, elas nasceram em São Félix do Araguaia (MT). Mas desde muito nova estão em Goiás - com menos de 5 anos mudaram para o bairro Santa Luzia, em Aparecida de Goiânia.

Hoje, Clemilda mora na Vila Pedroso com a mãe, parte dos irmãos e sobrinhos. Janildes optou por morar sozinha no Parque Bela Vista em 2004. Sobre a infância, Clemilda se diverte quando relembra certos acontecimentos. A família nasceu grande - foram 11 filhos mais um de criação. “Meu pai queria ter um time de futebol (ele até foi árbitro lá no Mato Grosso). Depois de cinco homens, eu nasci. Então, ele quis me dar para uma moça, porque dizia que só ‘fazia’ filho homem. Minha mãe que não deixou”, conta, sem demonstrar mágoa contra o pai, hoje morador do Garavelo.

Os episódios tristes, as irmãs tentam superar. “É preciso tocar a vida”, reforçam, ao comentar a morte dos irmãos Nilton, Milson e Ronaldo. Mais velho do clã, Nilton morreu com 28 anos, vítima de um acidente de moto. Milson capotou o carro, aos 25 anos, quando ia para o Mato Grosso. Com apenas 23 anos, Ronaldo morreu em fevereiro do ano passado, assassinado com três tiros na feira da Vila Redenção. “Até hoje, o crime não foi desvendado. Entreguei uma carta para o Lula durante o Pan para ver se fazem alguma coisa nessas investigações”, revelou Janildes.

CARREIRA - A paixão pelo ciclismo foi transmitida a Janildes pelo irmão Neilson. “Eu ia assistir ele nas corridas. Com esse incentivo, comecei a treinar, quando tinha 15 anos, para não ter de dizer não para o Neilson”, relembra. Clemilda também aderiu ao esporte nesta época. Mas desistiu depois de uma competição em Goiânia em que chegou na última posição - Janildes foi a 5ª. “A minha bicicleta era bem ruinzinha”, brinca Clemilda, que seis anos mais tarde retornou aos torneios incentivada por Janildes. “Ela me deu uma bicicleta boa”, confidenciou.

As meninas viajaram na sexta-feira, 27, para a Europa e permanecem lá até setembro, quando participam, na Alemanha, do Torneio Mundial de Ciclismo. Quando estão no Brasil, Janildes e Clemilda treinam cerca de seis horas por dia. São duas as principais 'rotas': de Goiânia a Bela Vista e a "Volta de Leopoldo", que consiste na saída da capital, passagem por Leopoldo de Bulhões, Anápolis e retorno a Goiânia.

“META É SUPERAR A COLOCAÇÃO DAS OLIMPÍADAS DE ATENAS”

Um dos mais novos atletas da seleção masculina de handebol - que trouxe do Rio o ouro e o bicampeonato no Pan -, o armador-esquerdo Guilherme Rosa, 22, tenta descansar após exaustiva jornada de... Jogos? Também, mas os compromissos depois de encerrada a participação no Pan foram igualmente movimentados. Primeiro, o jovem goiano passou pelo estresse de quem faz viagens de avião - foram cerca de 12 horas até conseguir chegar em Goiânia. Depois, entrevistas, muitas, e participações em campanhas publicitárias. “Estou precisando descansar”, confessou Gui, que retorna esta semana para São Paulo para se reapresentar ao Pinheiros.

EDUCAÇÃO FÍSICA - O primeiro contato com o esporte ocorreu quando o atleta cursava a 6ª série no Instituto Educacional Emmanuel. “Era a partir desta série que podíamos entrar para as aulas de Educação Física. Escolhi o handebol porque era a modalidade que meu irmão fazia.” Após competições regionais e nacionais - “no começo a gente ‘apanhava’ à beça, pois é gritante a diferença de nível de Goiás com outros Estados” -, Guilherme foi convidado para jogar em Guarulhos, em março de 2001. Dois anos mais tarde ia para o Pinheiros, time que ainda defende. Com o ouro no Pan do Rio, a equipe brasileira já tem vaga garantida nas Olimpíadas do ano que vem, em Pequim. “A competição é muito forte. Dos 12 times que participam, nove são da Europa (que são as seleções mais fortes). Nossa meta é superar a colocação de Atenas, quando ficamos em 9º lugar.”