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Monday, August 02, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida no corpo - ainda parte II

MAL ESTAR E ISOLAMENTO

Cheguei em casa exausto depois de pegar aquela peça pesada de chumbo e tentar desmontá-la com o Roberto. Fui descansar. Tentar, porque comecei a passar mal naquele domingo mesmo, dia 13. Vomitei, tinha dor de cabeça, começaram a surgir uns pontinhos na minha mão que pareciam mordida de muriçoca. Deve ser intoxicação alimentar por causa daquela manga verde com sal e da água de coco que tomei.

Uns três, quatro dias depois, não me lembro ao certo, uma de minhas irmãs me avisou que o Roberto também estava doente. Eu tinha melhorado um pouco. Fui visitá-lo. Ele perguntou se eu podia vender a peça em um ferro velho da Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Fui, conversei com o dono e fechei o negócio.

Mais tarde, com a ajuda do Eterno – um dos funcionários do Devair –, peguei a peça na casa do Roberto em um carrinho de papelão. Não me recordo da quantia recebida, mas sei que não era muita coisa, não. Na época, eu estava tentando ser motorista da antiga Casa do Colegial. Mas voltei a passar mal. Fiquei ruim mesmo uma semana depois que tive contato com aquela peça. Fui para um hospital da Rua 5, no Centro, e depois para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT). Estava internado com pacientes comuns, médico nenhum ainda sabia o que eu tinha.



*****

- Lourdes, cê não há de ver que eu andei a cidade toda de bicicleta e não achei uma farmácia aberta para comprar remédio para a Leide!

- É até engraçado, né, que cada esquina tem um bar, mas uma farmácia..., respondeu a mulher.

Leide já estava na cama dos pais. Vomitou e passou mal durante toda a madrugada do dia 25. Melhorou, cochilou e acordou boa no dia seguinte, uma sexta-feira.

Após o café da manhã, a menina já brincava serelepe pela casa. Lucimar estava mais quieto, sem disposição. Ivo trabalhava no depósito, no fundo do lote. Lourdes tirou o forro de chita da mesa e foi balançá-lo na porta da cozinha. Estranho! Havia um buraco no tecido; o pano apodreceu.

Enquanto a dona de casa cuidava dos afazeres domésticos, Luiza Odet, sua irmã, se preparava para viajar para Anápolis, com o marido e os filhos. Kardec tinha um PIS para receber na cidade, onde havia trabalhado antes de se mudar para a casa da cunhada, no Setor Norte Ferroviário, em Goiânia. Eles retornariam apenas no domingo à noite; a intenção era também visitar os parentes que lá moravam – a mãe de Kardec.

No sábado, entretanto, quando Ivo voltava de uma frutaria com uma sacola cheia de compras – ele havia recebido horas antes da Copel, empresa que recolhia o material reciclável que separava -, apareceu no portão Luiza Odet, Kardec e os filhos.

- Mas, gente, vocês não vinham só domingo?

- Não, Lourdes, tive que vir embora. Não dormi nadinha esta noite.

- Ué, o que que foi?

Odet mostrou o pescoço – estava com bolhas, parecia esfolado. Ivo se lembrou da quinta-feira, 24.

Titia, vem ver a pedrinha lumiante que o papai trouxe. Era Leide chamando Luiza Odet. Vou fazer a Odet ficar bonita. Era Ivo, brincalhão como sempre, pegando o pó azul e passando no pescoço da cunhada.

Ao ver o machucado que causara, o pai de Leide colocou as compras na cozinha e correu para a casa de Devair para ver como o irmão estava. Eram por volta de meio-dia.

- Nossa, mano. Cê não há de ver que o pouquinho que eu levei daqui daquele pó, eu passei no pescoço da Dete, e você precisa ver como tá agora, tudo cheio de bolha, queimou.

Maria Gabriela e Devair continuavam passando mal. Ivo ficou um tempo lá e voltou para casa. Almoçou. Foi para a porta do lote e começou a conversar com um vizinho – era o filho de um senhor que chamava Jacó, que estava cursando Medicina. Contou do mal estar dos familiares e do pó azul.

- Olha, essa pedra pode ser radioativa. Esse tipo de material só tem em universidade, em hospital. Se for radioativo mesmo é muito perigoso, pode causar leucemia, as pessoas não podem mais gerar filhos...

Na segunda-feira, 28, dois dias após a conversa com o filho do vizinho Jacó, Ivo não conseguiu levantar cedo para trabalhar, como de costume.

- Nossa, minha mão e perna estão doendo demais, Lourdes. Estão com bolhas. O olho também arde.

- Vamos ao médico, Ivo.

- Não, eu nunca precisei ir em hospital na minha vida. Não vou, não.

- Então vamos fazer o seguinte: eu vou na Maria ver que remédio ela está tomando, e aí eu compro o mesmo pra todo mundo.

Lourdes chamou Leide, a irmã Odet e foi a pé rumo à casa da cunhada. Mal pisou na Rua 26-A e presenciou o rebuliço que lá se formava – dois carros de polícia, uma ambulância, vizinhos xingando o Devair. A esposa de Ivo chamou Lucimar. Foram todos para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) – exceto Devair, que não aceitava ir ao médico. No zunzunzun do corredor da unidade, aguardando a presença de um pediatra para atender os filhos, Lourdes ouviu falar de um paciente internado, cujo nome era Wagner, que estava com problemas na mão; o comentário era que a carne do dedo dele ia cair.

“Disseram que o Wagner tinha pegado uma peça de chumbo no IGR. E que tinha outro rapaz com ele, que agora estava no Santa Maria, chamado Roberto”, detalhou Lourdes das Neves em uma tarde chuvosa de novembro de 2008.

O pediatra demorou a aparecer e Lucimar, o filho do meio de dona Lourdes, não pôde esperar a consulta porque tinha aula no colégio. Após a avaliação de Leide, o comentário do profissional:

- Todas as pessoas que tiveram contato com esse material precisam vir aqui colher sangue.

Lourdes voltou para casa, esquentou o almoço, convenceu Ivo a ir ao hospital com ela. Por conta da dor na coxa, ele não conseguia colocar calça ou bermuda. Vestiu um short e uma camiseta que tinha ganhado de aniversário no dia 20 de setembro.

- Mas, Lourdes, eu vou sair desse jeito?

- Ninguém vai reparar, não. Todo mundo sabe que quem vai ao hospital, não está bem.

A jovem senhora deixou Leide com Odet e rumou para o HDT com Ivo. Chegou por volta das 15 horas; era horário de visita. Enquanto o marido preenchia papéis na recepção, ela procurava o Wagner.

Fui para o pátio que era enorme e cheio de mangueiras. O Wagner tava sentado lá no fundo, eu tava procurando ele pelos dedos, não conhecia ele.

- Como vocês acharam aquela pedra? (se referia à marmita de césio) – questionou Lourdes, movida pela curiosidade, a Wagner.

- A gente foi tirando chumbo, ferro, metal, até que chegou naquela peça.

- E levaram tudo como? Numa mala, carrinho?

- O suporte todo era muito grande. A gente foi batendo, batendo, até soltar uma parte de chumbo.

- E o outro pedaço? Dona Lourdes daria uma boa repórter, pensei.

- O Lucas e o Kardec pegaram o resto da peça; o cabeçote.

Jesus! Esse trem tá lá em casa! Lucas era um dos funcionários de Ivo, e Kardec, o esposo de sua irmã Odet.

Ela nem se despediu de Wagner.

- Ivo, vambora, vambora!

- Que isso, mulher? Parece que tá ficando doida...

- Não, vambora, o outro pedaço da pedra tá lá em casa...

Para chegar no Setor Norte Ferroviário, Ivo e Lourdes passavam pelo Setor Aeroporto. Foi quando viram que a rua do Devair estava novamente lotada. Gente de jaleco branco...

Naquela segunda, 28 de setembro, Maria Gabriela, esposa de Devair, desconfiada de que a peça que emitia a luz azul estava ‘matando o seu povo’, levou o objeto à Vigilância Sanitária junto com um dos funcionários do esposo, Geraldo Guilherme da Silva. Eles se deslocaram de ônibus até a sede da unidade, que também ficava no Setor Aeroporto, Rua 16-A. O trabalhador carregou a “marmita do césio” no ombro e tem até hoje lesões nesta parte do corpo.

Quando chegou perto da casa do cunhado, Lourdes gritou:

- O cabeçote da peça tá lá em casa!

Desceu todo mundo para o Norte Ferroviário. Quando os físicos chegaram perto da menina Leide, o aparelho que media radiação disparou. Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

- A senhora não pode ter mais contato com ela!

Como assim?! A senhora não pode ter contato com ela. É minha filha.

Os físicos se entreteram no depósito em busca do cabeçote. Dona Lourdes entrou de fininho em casa, deu banho em Leide e colocou uma roupinha nela.

Eles se envolveram tanto com o cabeçote que acho que esqueceram de mim. Aí foram embora.

Mas a ausência momentânea dos “homens de jaleco branco” que tinham um aparelho que fazia piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii não foi suficiente para desanuviar o ambiente. Lourdes teve uma crise de choro, e não conseguia, de jeito nenhum, amenizar a dor que sentia na cabeça e uma cólica de menstruação. Resolveu ligar a TV.

*****

No dia 29 de setembro, por volta das 19 horas, Marli assistia ao jornal na sala de sua casa, no Jardim Veneza.

- Meu Deus! – comentou a esposa de Adelson com a irmã Carmelita, que morava com eles desde o início de 1987. É o Devair na TV. Estão falando que teve um vazamento de gás, um acidente que pode ter material radioativo.

Assustada e com medo de preocupar o marido, que trabalharia dentro de poucas horas, ela preferiu checar a veracidade da notícia. Decidiu que buscaria mais informações no dia seguinte, uma quarta-feira, 30 de setembro. Mas foi nesta mesma madrugada que Adelson começou a sentir fortes dores na mão esquerda e no dedo indicador da direita.

- Você tem condições de trabalhar hoje? – perguntou o diretor da Rápido Araguaia assim que Adelson o abordou na empresa para contar o problema.

- Tenho, sim.

- Então, quando terminar seu expediente, você entrega o ônibus e pode pegar essa licença de oito dias para ver o que tem na mão. Sem problemas.

Adelson não voltaria para a empresa em oito dias. Nem em um mês. Nem no fim do ano. Simplesmente não voltaria. A nebulosa perspectiva começava a ser desvelada ao meio-dia do dia 30. Quando estava no ponto final do Terminal Isidória, chegou o marido de Creusa, sua irmã, e falou:

- O Devair mandou te avisar que aquele material lá na casa dele que você viu e tocou é radioativo. Você deve procurar um médico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que já está lá no Hospital do Inamps. O nome dele é Alexandre.

Adelson relutou. Estava com medo de ser isolado, se-pa-ra-do, segregado. Já corria a notícia de que várias pessoas estavam sendo avaliadas no Estádio Olímpico por técnicos da Cnen. O que aconteceria a todas elas? O que faziam com elas dentro do Estádio? Que tipo de tratamento? Não, não falaria que havia tocado na peça. Mas, de qualquer forma, iria ao HDT ver os irmãos.

Ele pegou o ônibus de um companheiro de serviço mais cedo, voltou para o ponto do Cidade Livre, e entregou o veículo para outro parceiro da empresa. Saiu na sua Kombi bege, ano 1982, rumo ao hospital. Quando chegou na unidade, por volta das 16 horas, Ivo e Devair estavam entrando na ambulância para serem transferidos para o HGG. Adelson os seguiu. Recebeu um recado do Ivo:

- Mano, eu queria que você pegasse meus porcos porque eles estão lá em casa sozinhos. Leva pra sua casa pra tratar deles, senão eles vão morrer de fome.

O motorista perguntou ao médico presente se poderia levar os animais.

- Sim, só não pode comê-los antes de 120 dias. Mas é bom você perguntar ao pessoal da Cnen.

Adelson foi ao Estádio Olímpico junto com seu cunhado Divino, que horas antes havia lhe avisado sobre a tal da “radioatividade”, para consultar o chefe da operação Donald Binns. Ele disse que não haveria problemas em pegar os animais. Mais uma vez, o motorista não comentou que havia tocado na “pedra da luz azul”. Saiu de lá, pegou os porcos e levou-os para sua casa. (Posteriormente, os porcos e outros animais domésticos foram sacrificados pelos técnicos da Cnen porque também estavam contaminados pelo césio).

Primeiro de outubro. A mão ainda ardia. Adelson não agüentou. Por volta das 5 horas, voltou ao Hospital do Inamps. Queria falar com o doutor Alexandre Rodrigues de Oliveira. Os irmãos estavam a caminho do aeroporto Santa Genoveva. Ivo e Devair seriam transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, unidade que recebeu os radioacidentados em situação mais grave. Junto com os irmãos, mais quatro pacientes deixavam Goiânia num avião da Força Aérea Brasileira (FAB): a menina Leide, Wagner, Roberto e Ernesto Fabiano, que havia ganhado do irmão Edson Fabiano, vizinho de Devair, fragmentos do pó azulado.

Adelson só seria internado definitivamente no Inamps – ou HGG - no dia 3 de outubro. Foi o último paciente a concluir o processo de descontaminação. Saiu de lá em 26 de dezembro e foi encaminhado para o abrigo Bom Samaritano, perto da rodoviária, um dos locais provisórios para onde as pessoas que tiveram contato com a substância eram levadas após tratadas – nesta época as casas contaminadas estavam sendo demolidas; os rejeitos radiativos foram transportados para Abadia de Goiás, a 24 quilômetros de Goiânia.

O outro local que recebia pacientes com menor grau de radiação era um abrigo da Febem, no Jardim Europa. Lá ficou dona Lourdes depois que foi separada da família. Ela ainda se recorda dos detalhes:

“Eram duas, três horas da madrugada. Ouvi um barulho no portão, fiquei de joelho na cama e vi pelo vitrô um ônibus da polícia bem grandão. Os últimos que faltavam pegar era nós. Sentei na cama e comecei a chorar. Quando chegamos no Estádio Olímpico, o pessoal do Exército já montava umas barracas.”

Ela continua:

“Quem tinha lesão ficava no ônibus para seguir no hospital. Da minha família só eu e meus quatro sobrinhos pequenos desceram. Levaram o Ivo, o Lucimar, a Leide, a Odet, o Kardec”.

Sobre o último contato com a filha:

“Desci com a Leide no braço e, na entrada do estádio, tinha uma muretinha. Coloquei ela lá e abracei seus pés. Os técnicos da Cnen voltaram a medir ela e falaram que a Leide tinha de ir. Ela subiu no ônibus e foi internada no hospital com o pai”.

Lourdes não voltaria a ver a filha viva. No dia 23 de outubro, a menina morreu poucas horas após o óbito da primeira vítima fatal da tragédia, Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair. Os dois funcionários de Di, Israel e Admilson, que haviam desmontado a peça no dia em que Adelson visitou o irmão, no dia 22 de setembro, também não resistiram. O primeiro morreu no dia 27 de outubro; o segundo; no dia 28 de outubro de 1987.

Já Devair, após o acidente, teve problemas com bebidas alcoólicas. Ele faleceu em 1994 de cirrose. Embora não divulgado na época, o laudo também apontava câncer em dois órgãos: na próstata (um adenocarcinoma focal) e no esôfago superior (um carcinoma epidermóide micro-invasivo).

Continua

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