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Tuesday, January 12, 2010

Vale a pena ler de novo! Pelo menos é o que a autora pensa...

Uma retrospectiva diferente. Não de fatos, metas ou objetivos alcançados. Mas de textos. Matérias. Narrativas. Tudo o que escrevi até agora, prestes a completar 29 anos, e que acho legal republicar. Ao mais incauto leitor, o aviso: muita coisa está longe de ser uma “Brastemp”. Mas, nem por isso, os textos que seguem agregam menos valor. Não para mim. Todos eles têm um “quê” de especial. Talvez porque abordam um tema que gosto muito. Talvez porque me forçaram a superar medos. Talvez porque marcam minha estreia e primeiros anos em redação. Enfim, as razões seriam muitas... Melhor é acabar com este lenga-lenga de comercial e colocar logo o “Vale a pena ler de novo!” pra rodar.

Comecemos então pelo HOJE Retrô. Dois anos na empresa me renderam boas pautas, bons amigos, coberturas inusitadas, tombos devidamente registrados pelo colega Demian Duarte, risadas gostosas com Selma Cândida, superação, elogios, frustrações, puxão de orelha, publicação de um livro e muito mais. Pra quem se aventurar...

O brilho dos goianos no Rio

(Matéria publicada no HOJE no dia 3 de agosto de 2007.
Apaixonada pela área esportiva, me senti presenteada com a pauta do Pan. Aliás, todas as matérias em que tive a oportunidade de ‘caminhar’ por campos, pistas e quadras – nem que seja de maneira virtual - me arrebataram. A reportagem abaixo traz um breve perfil de três destaques goianos no Pan do Rio, realizado em 2007.
No registro fotográfico de Selma Cândida, eu com o medalhista de bronze de tae kwon do, Leonardo Gomes. Sim, eu sou repórter tiete, rs!)





Nos últimos 15 dias, os goianos aprenderam a torcer por eles. Não duvide. Rituais se repetiram pelas milhares salas-de-estar espalhadas pelo Estado. Olhos vidrados na TV, caretas, gestos, pedidos de silêncio - tem gente que adora incomodar quando começa alguma partida esportiva. Mas você driblou o obstáculo. E os representantes de Goiás, os adversários. No domingo que marca o fim da 15ª edição dos Jogos Pan-americanos, o HOJE dá a oportunidade para você, leitor, conhecer mais do que apenas os nomes dos atletas goianos que subiram ao pódio no Rio. Vai, já pode dizer que é íntimo dos campeões. Afinal, depois de ler as linhas abaixo, não vai ter história (pelo menos de quatro desportistas) que fique no anonimato.

“NÃO GOSTO DE DEIXAR VÍNCULOS PARA TRÁS”

Carismático, patriota, bairrista. Não esqueça de acrescentar esses adjetivos ao falar do lutador de tae kwon do Leonardo Gomes, medalha de bronze na categoria acima de 80 quilos. Com 24 anos e dezenas de títulos, ele faz questão de manter os laços com a terra que o criou. Ele treina em Goiânia - e olha que Léo já perdeu as contas do número de convites recebidos para ir para São Paulo ou Paraná, locais onde a luta tem tradição. “Sou muito família, não gosto de deixar vínculos para trás”, diz, embora admita que pode deixar Goiás nos próximos anos para sedimentar o sonho de participar de duas Olimpíadas. Enquanto não muda de cidade...

... Léo aproveita o aconchego do lar, um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro no Jardim Esmeraldas, em Aparecida de Goiânia. Há 19 anos ele vive no local com o pai - seu Benedito Gomes, funcionário da sorveteria Beija-Frio -, a mãe - dona Olinda Guimarães, que não se cansa de ‘cobrar’ dos filhos organização na casa - e o irmão mais velho, Rodrigo, com quem divide o quarto. Dividia. O primogênito casa esta semana e o lutador vai ter de encarar a ‘arrumação’ do cômodo sozinho. Mas para quem passou por dois adversários com o joelho lesionado e saiu com um bronze - no primeiro confronto no Pan, contra o venezuelano Luis Noguera, Léo rompeu o ligamento cruzado anterior direito -, o desafio doméstico pode também ser superado. E sem traumas.

TRAJETÓRIA - Apesar de raízes fincadas em Aparecida, Leonardo Gomes também tem histórias para contar do bairro Alto da Glória, em Goiânia. Foi lá, na Escola Municipal Izabel Esperidião Jorge, que o jovem concluiu a 4ª série (atualmente, ele está com o curso de Fisioterapia trancado na Universo). Também no setor, por influência do primo Edgar Guimarães, Léo começou a lutar tae kwon do na Academia Master. Os treinos iniciais duravam uma hora e ocorriam de segunda a sexta-feira. “No começo, era só por diversão”, confessa.

Entretanto, em 1995, um ano após ser apresentado ao esporte, o garoto de 12 anos mostrou garra de campeão. Durante o Campeonato Brasileiro Infantil, realizado em Belo Horizonte, Leonardo conquistou o bronze. Detalhe: ele lutou cinco graduações acima da sua. O goiano estava na faixa verde e se inscreveu para a vermelha. Ousadia e início de uma trajetória vitoriosa. No caminho, percalços. Em 96, Leonardo interrompeu os treinos por causa das condições financeiras. Resolveu, então, jogar futebol. No Goiás, ficou três anos até chegar ao time juvenil. Mas viu que não ia ter futuro com a bola.

Na mesma época, em 99, seu primo que o iniciara no tae kwon do, Edgar Guimarães, retornou de um treinamento que fizera nos Estados Unidos e comprou a academia Master. Leonardo voltou a lutar; tinha agora as despesas pagas. Os resultados foram sucessivos: em 2002, entrou na seleção olímpica; em 2003, ouro nos Jogos Sul-Americanos; 2004, prata no Mundial Universitário; 2005, sexto lugar no Campeonato Mundial, em Madri; 2006, bronze no Korea Open e bicampeão do Pan-americano de tae kwon do, na Argentina; 2007, bronze no Pan do Rio.

Mas estas não foram as únicas conquistas - o quadro de medalhas na sala de visita do goiano ainda não está completo (junto com as nacionais, ele pretende montar um mural com as internacionais, que, por enquanto, estão aglomeradas ao lado de troféus no quarto do esportista). Mais do que honrarias, entretanto, as lutas e títulos renderam a Leonardo um aprendizado de superação. Ele chegou a vender rifas, a bicicleta e até o próprio carro para participar de competições. Não desistiu. Saiu vitorioso. Mas é duro ao cobrar apoio para os atletas. “É preciso estrutura para competir. Me entristece a falta de apoio, mesmo quando mostramos resultados”.

“É PRECISO TOCAR A VIDA”

Essas meninas... Sim, elas têm muita coisa para falar. Histórias curiosas, relatos tristes. Mas é com um sorriso no rosto que as irmãs Clemilda Fernandes (bronze na prova de contra-relógio do ciclismo no Rio) e Janildes (prata em Santo Domingo e bronze em Winnipeg) dão detalhes sobre suas trajetórias. Filhas de um carpinteiro e de uma auxiliar de limpeza, elas nasceram em São Félix do Araguaia (MT). Mas desde muito nova estão em Goiás - com menos de 5 anos mudaram para o bairro Santa Luzia, em Aparecida de Goiânia.

Hoje, Clemilda mora na Vila Pedroso com a mãe, parte dos irmãos e sobrinhos. Janildes optou por morar sozinha no Parque Bela Vista em 2004. Sobre a infância, Clemilda se diverte quando relembra certos acontecimentos. A família nasceu grande - foram 11 filhos mais um de criação. “Meu pai queria ter um time de futebol (ele até foi árbitro lá no Mato Grosso). Depois de cinco homens, eu nasci. Então, ele quis me dar para uma moça, porque dizia que só ‘fazia’ filho homem. Minha mãe que não deixou”, conta, sem demonstrar mágoa contra o pai, hoje morador do Garavelo.

Os episódios tristes, as irmãs tentam superar. “É preciso tocar a vida”, reforçam, ao comentar a morte dos irmãos Nilton, Milson e Ronaldo. Mais velho do clã, Nilton morreu com 28 anos, vítima de um acidente de moto. Milson capotou o carro, aos 25 anos, quando ia para o Mato Grosso. Com apenas 23 anos, Ronaldo morreu em fevereiro do ano passado, assassinado com três tiros na feira da Vila Redenção. “Até hoje, o crime não foi desvendado. Entreguei uma carta para o Lula durante o Pan para ver se fazem alguma coisa nessas investigações”, revelou Janildes.

CARREIRA - A paixão pelo ciclismo foi transmitida a Janildes pelo irmão Neilson. “Eu ia assistir ele nas corridas. Com esse incentivo, comecei a treinar, quando tinha 15 anos, para não ter de dizer não para o Neilson”, relembra. Clemilda também aderiu ao esporte nesta época. Mas desistiu depois de uma competição em Goiânia em que chegou na última posição - Janildes foi a 5ª. “A minha bicicleta era bem ruinzinha”, brinca Clemilda, que seis anos mais tarde retornou aos torneios incentivada por Janildes. “Ela me deu uma bicicleta boa”, confidenciou.

As meninas viajaram na sexta-feira, 27, para a Europa e permanecem lá até setembro, quando participam, na Alemanha, do Torneio Mundial de Ciclismo. Quando estão no Brasil, Janildes e Clemilda treinam cerca de seis horas por dia. São duas as principais 'rotas': de Goiânia a Bela Vista e a "Volta de Leopoldo", que consiste na saída da capital, passagem por Leopoldo de Bulhões, Anápolis e retorno a Goiânia.

“META É SUPERAR A COLOCAÇÃO DAS OLIMPÍADAS DE ATENAS”

Um dos mais novos atletas da seleção masculina de handebol - que trouxe do Rio o ouro e o bicampeonato no Pan -, o armador-esquerdo Guilherme Rosa, 22, tenta descansar após exaustiva jornada de... Jogos? Também, mas os compromissos depois de encerrada a participação no Pan foram igualmente movimentados. Primeiro, o jovem goiano passou pelo estresse de quem faz viagens de avião - foram cerca de 12 horas até conseguir chegar em Goiânia. Depois, entrevistas, muitas, e participações em campanhas publicitárias. “Estou precisando descansar”, confessou Gui, que retorna esta semana para São Paulo para se reapresentar ao Pinheiros.

EDUCAÇÃO FÍSICA - O primeiro contato com o esporte ocorreu quando o atleta cursava a 6ª série no Instituto Educacional Emmanuel. “Era a partir desta série que podíamos entrar para as aulas de Educação Física. Escolhi o handebol porque era a modalidade que meu irmão fazia.” Após competições regionais e nacionais - “no começo a gente ‘apanhava’ à beça, pois é gritante a diferença de nível de Goiás com outros Estados” -, Guilherme foi convidado para jogar em Guarulhos, em março de 2001. Dois anos mais tarde ia para o Pinheiros, time que ainda defende. Com o ouro no Pan do Rio, a equipe brasileira já tem vaga garantida nas Olimpíadas do ano que vem, em Pequim. “A competição é muito forte. Dos 12 times que participam, nove são da Europa (que são as seleções mais fortes). Nossa meta é superar a colocação de Atenas, quando ficamos em 9º lugar.”