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Wednesday, July 21, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida no corpo - Parte II

Wagner Mota Pereira / Crédito: Demian Duarte

 O CONTATO

- Deus, quero te conhecer. Quero te ver como os discípulos te viram. Se for preciso, estou disposto a passar por um sacrifício. Quero ser provado e aprovado.

Quando disse tudo isso, não imaginava o que estava por vir. Sete, no máximo 15 dias após este pedido, o acidente aconteceu. Era domingo, 13 de setembro e eu reformava o piso do meu barracão junto com um pedreiro – morava na Rua 63, com minha esposa e enteada de 4 anos, no fundo do lote da minha sogra. Por volta das 7 horas, o Roberto apareceu.

- Achei uma peça de chumbo nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. Vamos lá ver.

- Tô trabalhando, Roberto.

- Vamos, Wagner. Pode ser que esse material dê algum dinheiro.


Saturday, July 17, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida na Alma - I Parte

Depois do livro e durante a pós-graduação em Jornalismo Literário, concluída em 2009, resolvi fazer uma nova reportagem sobre as vítimas do acidente com o césio 137. Desta vez, escolhi 3 personagens centrais para dissecar o episódio que marcou a história de Goiânia. Agora, deliberadamente ciente das técnicas narrativas que poderia usar, amparada nos recursos e princípios do JL, e tendo como norte “Hiroshima”, de John Hersey – obra que ainda não conhecia quando da produção de “Sobreviventes do Césio”. Decidi ir mais fundo, ousar mais, aprimorar o trabalho...

Pois bem: a grande-reportagem que vocês passam a conferir a partir de hoje, 17 de julho, foi escrita em dezembro de 2008 (um ano após o lançamento do livro), está dividida em três tempos – presente, passado e presente – e será publicada em partes – até para não cansar você, leitor. Ao final, divulgo também um making of contendo particularidades da produção e detalhando os recursos de JL utilizados. Espero que gostem do resultado!

Sobreviventes do Césio 137

FERIDA NA ALMA

Crédito: Demian Duarte
Lourdes das Neves Ferreira

Na casa que há um ano (2007) evocava fortemente lembranças de um período turbulento na vida de Lourdes das Neves Ferreira, 56, mudanças recentes na sala de estar tentam velar um passado que não se dissipa, não se esvai. Fotos guardadas, reorganizadas, trocadas de lugar. Mas as memórias permanecem. E machucam. “Esquecer, esquecer não tem como. Por isso procuro sempre manter a mente ocupada”, revela a senhora que há 20 anos mora no Setor Cidade Satélite São Luiz, em Aparecida de Goiânia, município da Região Metropolitana. Hoje, sozinha. Sem o marido, sem uma das filhas e sem esperanças de uma vida melhor. Esperanças que faziam parte de sua rotina em 1987, quando vivia com toda a família na Rua 6, do Bairro Norte Ferroviário, em Goiânia. O lar foi derrubado por um minúsculo pó azul. Uma sobrevivente. Do maior acidente radioativo ocorrido em uma área urbana no mundo. Sobrevivente do césio 137.

Dona Lourdes é a mãe da menina que virou vítima-símbolo da tragédia, a pequena Leide das Neves, morta em 23 de outubro de 87, com apenas 6 anos, pelos efeitos da radiação. Tem outros dois filhos, Lucélia, 37, e Lucimar, 35, que, agora adultos, têm sua própria família – ou tentam ter. O marido, Ivo Alves Ferreira, morreu em 2003, de insuficiência respiratória. Foi ele quem levou o pó do césio para casa, após uma visita ao irmão Devair Alves Ferreira, que havia comprado uma peça de chumbo há poucos dias. Não sabia Di, como era conhecido Devair, que o objeto era parte de um aparelho utilizado para tratamento de câncer, no qual estava acoplada uma cápsula da substância radioativa. Muito menos suspeitava que o artefato tinha sido retirado de uma clínica desativada no Centro de Goiânia, o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), hoje o prédio do Centro de Convenções da capital. E também não imaginava que existia um órgão federal chamado Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), responsável pela fiscalização de material radioativo no País, mas que não supervisionava o local há cerca de dez anos.