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Sunday, August 15, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida na mente

Depois do desastre radioativo, Wagner Mota Pereira “virou cigano”. Morou no Parque Ateneu, em Goiânia, em Anápolis (levou um irmão para tratar de esquizofrenia na cidade), Pirenópolis (município onde seu pai mora), e novamente Anápolis, onde está desde 2005. “O que me sustentou psicologicamente foi ficar longe das lembranças do acidente”, revela o homem de 40 anos que, no olhar e no jeito, ainda carrega resquícios daquele menino franzino de 19 anos.

“Mas hoje vi que fui bobo de ter ‘corrido’ das pessoas. Porque se a minha cabeça ficou legal por um lado, por outro me prejudicou. Mas eu não tinha estrutura naquela época. Eu só tinha 19 anos! E ainda tive de lidar com o fato das pessoas acharem que eu era o culpado”, desabafa.

Wagner continua: “E aí veio o problema nas mãos (a esquerda com quatro dedos atrofiados e um amputado) e no pé (o esquerdo ficou lesionado). Eu já era tímido, e com esse defeito físico, aumentou o meu isolamento. Eu tinha vergonha de comer num restaurante, por exemplo. Mas eu podia ter virado o jogo, né?”


Monday, August 02, 2010

Sobreviventes do césio 137 - Ferida no corpo - ainda parte II

MAL ESTAR E ISOLAMENTO

Cheguei em casa exausto depois de pegar aquela peça pesada de chumbo e tentar desmontá-la com o Roberto. Fui descansar. Tentar, porque comecei a passar mal naquele domingo mesmo, dia 13. Vomitei, tinha dor de cabeça, começaram a surgir uns pontinhos na minha mão que pareciam mordida de muriçoca. Deve ser intoxicação alimentar por causa daquela manga verde com sal e da água de coco que tomei.

Uns três, quatro dias depois, não me lembro ao certo, uma de minhas irmãs me avisou que o Roberto também estava doente. Eu tinha melhorado um pouco. Fui visitá-lo. Ele perguntou se eu podia vender a peça em um ferro velho da Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Fui, conversei com o dono e fechei o negócio.

Mais tarde, com a ajuda do Eterno – um dos funcionários do Devair –, peguei a peça na casa do Roberto em um carrinho de papelão. Não me recordo da quantia recebida, mas sei que não era muita coisa, não. Na época, eu estava tentando ser motorista da antiga Casa do Colegial. Mas voltei a passar mal. Fiquei ruim mesmo uma semana depois que tive contato com aquela peça. Fui para um hospital da Rua 5, no Centro, e depois para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT). Estava internado com pacientes comuns, médico nenhum ainda sabia o que eu tinha.