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Saturday, March 30, 2013

3 - Ensinamentos



Talvez alguém possa se perguntar como é possível falar tanto em presentes quando se luta contra um câncer. Minha resposta, lacônica e direta: também não sei. O que posso testemunhar, apenas, é o que vivi: mesmo percorrendo um caminho repleto de pedregulhos e espinhos, Deus ainda sim nos deu alegrias, momentos de refrigério e até caixas amarelas.

A noite em que mamãe soube da minha gravidez foi agitada. Ela demorou a pegar no sono e conversou muito com a Camilinha, que dormiu no Hospital Brasília naquele dia, uma sexta-feira. No sábado foi a vez de dona Regina surpreender a mãe dela, minha avó Lucy, que havia chegado de Uberaba há pouco. Mamãe decidiu que só contaria sobre minha gravidez para as outras pessoas depois que vovó soubesse. E olha que ela recebeu visitas no dia 23 de junho: de amigas, sobrinhos, irmãos. Como uma menina sapeca que tem um segredo, Reca escolheu a melhor hora para revelar a novidade. No momento, eu e Thiago não estávamos presentes. Havíamos saído para lanchar. Mas, mesmo longe, meu coração estava acelerado e minha mente, em ebulição. Imaginava repetidas vezes a satisfação de mamãe em anunciar para o mundo que ela era VOVÓ também!
   
 - Carla, eu nunca me senti tão honrada com o gesto de sua mãe. Eu, nessa idade, com quase 80 anos, me senti especial, extremamente respeitada – comentou vovó Lucy, 79, com os olhos cheios de lágrimas ao me contar da “arte” de sua primeira filha mulher.

Eu senti um baita orgulho de mamãe. E me lembrei na hora do que diz a Bíblia:

“Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” (Efésios 6:2).

Mesmo num leito de hospital, enfrentando um câncer de colo de útero que já havia se espalhado pelo corpo, mamãe vivia o que nos havia ensinado. Pode até parecer um gesto pequeno, mas todos nós, familiares, ficamos extremamente tocados. Assim como também nos sensibilizamos com outras atitudes de mamãe. Ela nunca se considerou uma vítima da doença.

 - Não gente, esta vida vale a pena, esta vida tem propósito!

Mal sabia dona Regina que esta frase, dita de maneira despretensiosa quando saímos um dia de carro para levá-la à loja Leroy Merlin, impactou sobremaneira o coração do genro. Thiago estava triste por enfrentar alguns conflitos e viu no comportamento da sogra mais do que um exemplo. Um testemunho de vida. Agora pense: se simples palavras mexiam conosco, imagine as orações de mamãe.

 - Eu fiquei impressionado com a Regina. A gente foi lá para visitá-la e ela orou por nós. Pediu por mim, pela Valéria, pela Vera, pelo Roberto, e só no final, por último, falou sobre a doença dela.

Tio Cláudio, irmão de mamãe, parecia não acreditar. Reca orou pelos irmãos e cunhada antes de pedir pela cura de um câncer.

“Cada um considere os outros superiores a si mesmo” – Filipenses 2:3

E os ensinamentos não pararam por aí. Quando conversávamos no hospital sobre o nome do meu bebê – João Lucas foi uma das sugestões de mamãe -, ela também me deu recomendações sobre amamentação e alimentação na gravidez. Quando eu, internamente, questionava a Deus – confesso que fiz isso, sim, e várias vezes – o porquê da doença, ela me ensinava, mesmo sem saber dos meus conflitos, que nunca devemos perder a capacidade de sonhar.

 - Quando eu melhorar e a gente for para a praia com as meninas, você e o Thiago vão poder descansar enquanto eu caminho na areia com meu netinho – ou netinha – e dou água de coco!

Mais doce do que sua fala eram seus olhos. E mais grato do que minhas lágrimas escondidas era o meu coração.

(Continua).

Monday, March 25, 2013

2 - Pres(sentimento) de Mãe


Minha mãe sempre sonhou em ser avó. E no final de 2011 foi ela quem me deu um presente: a manta que bordou para mim quando eu era bebê. Ato profético. Assim como o encarte do Correio Braziliense que ela colocou escondido na minha bolsa quando eu e o Thiago passamos um final de semana com ela e com as meninas em Brasília (minhas irmãs, Renata e Camila, serão sempre meninas pra mim). A chamada da capa da Revista do Correio - o caderno de cultura do jornal - do dia 29 de abril de 2012 era a seguinte: “A agitada vida do senhor bebê – Inglês, música, jogos... Descubra a dose certa de estímulos para o seu filho”. Quando cheguei em Goiânia e abri a bolsa, qual não foi a minha surpresa!

 - Como isso veio parar aqui?

 - Sua mãe colocou na bolsa sem ninguém ver.

É, na verdade, quaaaase ninguém viu. Dos olhos observadores do Thiago, Reca (apelido de mamãe) não conseguiu escapar.

E eu abri um sorriso enorme ao imaginar a cena. O cuidado, o zelo, a atenção, a preocupação de dona Regina com sua filha mais velha. A sua fé.

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. (Hebreus 11:1)

Mamãe nunca duvidou que eu seria mãe. A manta e o encarte do Correio me foram dados antes de eu engravidar, o que ocorreu em maio de 2012. Mês do seu aniversário. Mês também em que ela engravidou de mim, há pouco mais de três décadas. Mês das mães.

 - É claro que você vai ser mãe, Carla.

Era como se ela lesse meus pensamentos e retirasse o receio que eu tinha – e acredito que a maioria das mulheres já pensou nisso pelo menos uma vez na vida – de não vivenciar a maternidade. Olha que ela nem sabia que há dois anos eu havia suspendido o anticoncepcional e que um ovário micropolicístico adiava, de forma inexplicavelmente macro, meu sonho de ter um bebê.

Mas, em maio de 2012, aconteceu. E também em maio de 2012, o resultado – pasmem! - deu negativo, mesmo eu estando grávida. A pedido da minha médica, repeti o exame. No dia 15 de junho, nossa redenção. Eu e Thiago, paralisados em frente ao computador.

 - Carla, você tá grávida! Carla, você tá grávida! Carla, você tá grávida! – Thiago repetia sem parar.

Eu não acreditava. E, sim, meus olhos se encheram de lágrimas. Lágrimas que rapidamente lavaram aquelas memórias de resultados negativos de outrora – conferidos dentro do carro em frente ao laboratório, no nosso quarto, ou depois de um dia de trabalho na Prefeitura de Aparecida de Goiânia.

Grávida, eu começava a me imaginar grávida! Nossa, a ficha não caía.

Êxtase total. Euforia total. Ao ligar para a minha médica: “Dra. Samira, o que eu preciso fazer agora? Que dia marcamos o ultrassom? Que dia posso ir aí no consultório? E o raio-X que fiz quando quebrei o dedão do pé (no dia 2 de junho)? Pode ter feito mal para meu filho?”. Ao ligar para meu endócrino: “Continuo tomando o Puran T4? (remédio usado para controlar o hipotireoidismo). Mais alguma recomendação quanto à minha alimentação?”. Ao ligar para minha terapeuta: “Dra. Jane, estou grávida!!!!!!!!”.

Começamos uma corrida interna. E externa. E eu com aquelas botas ortopédicas lindas de morrer! (Segunda vez em quatro meses que usei a bendita; no começo do ano, havia torcido meu pé no estacionamento da Agência Goiana de Comunicação – Agecom). Mas enfim: com bota ou sem bota, mancando ou não, a meta era organizar tudo para dar a notícia em primeira mão para mamãe e para as meninas. Fiz o ultrassom. Cheguei antes na capital federal. Thiago, na sexta-feira, 22 de junho, depois do expediente, com a caixa amarela. Horas antes, eu havia conversado com a oncologista da mamãe, Dra. Daniele Assad, no corredor do Hospital Brasília. Queria saber se podia contar a novidade naquele mesmo dia, quando estava marcada a primeira sessão de quimioterapia da vovó mais linda do mundo.

 - Olha, Carla, acho que hoje ela já vai ter muita adrenalina. Mas vocês podem avaliar melhor. Ela vai ficar muito feliz! – observou Dani, como minha mãe costumava chamar carinhosamente a oncologista.

 - Parabéns! – complementou ela, ao me dar um abraço forte e afetuoso.

Eu e Thiago conversamos com as meninas. Antes de mostrar a caixa amarela para a mamãe, mostramos para elas. Renata e Camila sorriram. Choraram. Nos abraçaram.

Acendemos a luz do quarto.

 - Mãe, olha o presente que a Carla trouxe pra gente...

(Continua).

Friday, March 22, 2013

1 - Coração de Mãe


- Mãe, olha o presente que a Carla trouxe pra gente.

A voz, naquele momento suave e serena, de Renata rompeu o silêncio do quarto. A caixa amarela era simples. E, embora pequena, parecia que de dentro dela pulsava VIDA. Corações batiam acelerados. O meu. TUM TUM. O da Renata. TUM TUM. O da Camila. TUM TUM. O do Thiago. TUM TUM. O da minha mãe, Regina Lacerda do Nascimento. TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM.

Minha vontade é de não parar de escrever TUM TUM. Como se aqui, nesta lauda, com os dedos no teclado, com toques repetitivos, eu tivesse o poder de mudar o destino, de prolongar esses 55 “tuntuns”, 55 anos. Queria eu prolongar vidas, proloooooongar VIIIIIIIIIIIIIDA, dar VIDA. 

 - Vira para a senhora poder abrir (a caixa) – falou Thiago para a sogra, que já estava deitada naquela noite.

Thiago havia saído do expediente em Goiânia na sexta-feira, 22 de junho de 2012, e depois de um percurso de pouco mais de duas horas, chegou à capital federal com a caixa amarela. Presente dele e meu. Minto. Presente de Deus. Providência divina.

- Ai que linda!

Mamãe ficou em silêncio por alguns segundos enquanto manuseava o conteúdo da caixa – um macacão minúsculo com estampa de peixinho.

- Quando é que vem? – perguntou, por fim.

- Tem seis semanas – respondo.

- Você tá grávida?

Os olhos de jabuticaba mais lindos que já vi rapidamente se encheram de lágrimas.

- Você tá grávida? – mamãe perguntou de novo, como se não acreditasse que aquele macacãozinho guardado na caixa amarela representasse a promessa de Deus já cumprida em nossas vidas. (Quando ela viu a roupinha, imaginou que preparávamos o enxoval de nosso primeiro filho por antecipação, mesmo sem estarmos “grávidos”. Daí a surpresa enorme quando eu disse que estava de seis semanas).

 - Você vai ser vovó! – exclamei. 

Mamãe chorava.

 - A senhora orou tanto!

- Ai, gente, eu vou ser avó!

- Descobrimos na semana passada, mãe.

 - Ai que bênção! Vai ser homem?

 - A gente ainda não sabe, dona Regina – respondeu Thiago. Só tem um mês.

 - Eu vou ser avó!

 - E eu vou ser titia, tô ficando velha – brincou Camila, com aquele jeito gaiato que só ela tem.

 - Mãe, a gente fez até o ultrassom.

 - Ah, deixa eu pegar o ultrassom. Peraí. 

Thiago foi atrás da imagem, que havia deixado no armário do quarto da minha mãe. Um quarto que, na verdade, não era o dela. Os lençóis brancos e o cobertor marrom, também não. Muito menos aquele sofá, que fazia as vezes de cama para as meninas e para mim. Nada disso nos pertencia. Nada disso era nosso. Nosso mesmo era o AMOR. É o AMOR. De mãe e filhas. De irmãs e irmãs. De sogra e genro. De cunhado e cunhadas. E, a partir daquele momento - não importa se mamãe fazia sua primeira sessão de quimioterapia no Hospital Brasília -, de pais de primeira viagem e filho, de titias e sobrinho, de VOVÓ e de NETO.

(Continua)