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Wednesday, April 24, 2013

5 - Saudades


Olha, o caminho natural desta viagem, ou para usarmos os termos literais mesmo, desta história, era eu continuar a narrativa sobre a descoberta do câncer da mamãe. Mas assim como na vida vivida, a vida escrita também tem suas pausas, curvas, interrupções, imprevisibilidades. Faço outra rota hoje – a da saudade. Acordei lembrando tanto de você, mãe! Tanto que dói o coração, dói o corpo, dói a alma, doem os olhos de chorar. Tudo que escrevo agora vem regado de lágrimas, muitas lágrimas.


Sinto uma saudade IMENSA e profunda...
Papai, mamãe e eu (com 9 meses) 1981
De ver o seu sorriso,

De ouvir a sua gargalhada (e só quem te conheceu sabe do que estou falando),

De receber o seu cafuné – quando criança, quando adolescente, quando adulta e até quando você estava doente e me deixou deitar no seu colo,

De ouvir você falar “Relaxa, Carla; relaxa, minha filha” toda vez que me via agoniada com qualquer besteira,

De você me pagar uma casquinha de baunilha do McDonald’s toda vez que eu ia te ajudar no consultório do Conjunto Nacional,

De ver você comer seu sorvete preferido, de flocos, ou o picolé Chicabon,

De você pegar a gente na escola em Brasília, parar no “Gogó” pra comprar pão e deixar a gente comer no carro,

Do seu brigadeiro, do bolo formigueiro, da torta sonho de valsa que fez os meus 15 anos serem especiais,

Do cachorro quente que fazia no domingo, depois que chegávamos do clube, e que comíamos vendo “Os Trapalhões”,

De você montar um fogão de tijolo pra gente brincar de comidinha e acabar fazendo arroz de verdade,


De você arrumar minha lancheira e eu vibrar quando tinha “Deditos” ou pão com manteiga, açúcar e Nescau,

De você me levar para comprar os materiais escolares,

De você estudar comigo, “me tomar o ponto e a tabuada” e me ajudar a fazer caligrafia,

De você ler “Reinações de Narizinho” pra eu dormir,

De você me ensinar que é normal errar. Lembra quando eu tirei nota baixa na prova de Matemática na 3ª série? Você me disse: “Olha, a mamãe também erra. Nem sempre eu acerto quando faço um bolo, mas sempre dá pra gente consertar”,

De você fazer meus trabalhos de Artes, porque definitivamente eu não tinha nenhuma habilidade nesta área,

De você ver minha primeira cesta de basquete,

De você me deixar usar sua maquiagem antes que você saísse com o papai,

De pegar suas roupas emprestadas,

De puxar o seu cabelo,

De ouvir você tocar piano,

De ouvir sua voz quando eu estava doente: “Você vai sarar, Carla, vai sarar, minha filha”,

Daquele dia em que a gente chegava no Dei Fiori (prédio) e você me ensinou que quando não temos algo bacana pra falar, algo edificante, é melhor ficar calada,

Eu, mamãe e Thiago. Natal de 2010
De você improvisar uma árvore de Natal com galhos retorcidos e algodão (era a neve) quando estávamos na fazenda,

De você me levar para as aulas de natação, sapateado, balé,

De você me levar de táxi para eu ir ao cinema com minhas amigas no Flamboyant, em Goiânia, ou de ônibus ao Maristão, em Brasília, quando ficamos sem carro,

De você não viajar no Natal que eu ia trabalhar pela primeira vez e fazer uma das minhas comidas preferidas, bife à parmegiana,

De você vibrar quando eu passei no vestibular,

Das roupas e blusinhas que você comprava pra mim – e sempre acertava -, pois sabia que eu não tinha paciência de experimentar e tinha “preguiça” de papo de vendedor (pra falar a verdade, tenho até hoje, mãe!),

Dos filmes de amor que assistimos e choramos juntas,
 
De você ser a minha leitora ou telespectadora mais fiel – sempre elogiou minhas redações, textos, livro, blogs e matérias na TV,

De você ouvir minhas ideias e projetos mais mirabolantes,

De ouvir você falar “Carla, quem nasce bonita não tem como ficar feia” quando eu me achava a mais horrível das meninas porque usava aqueles óculos bifocais enormes,

De você “me colocar pra cima”, falar que eu era especial e inteligente quando me via chorar por ter tantos complexos,

De você me levar ao oftalmologista em Uberaba, a pé, e de, na volta, a gente parar para tomar uma vitamina,

De você tomar sol e nadar na casa da vovó,

De você me mandar lavar a louça e o banheiro, eu fazer corpo mole, você mandar de novo e dizer que não existe este negócio de “meu tempo”,

De você chegar do trabalho e trazer de surpresa bombons sonho de valsa pra mim e para as meninas (e isso depois que a gente já estava grande!),

Eu, mamãe e o colega jornalista Claudio Santa Catarina,
durante confraternização em Brasília. 2005
De você participar das minhas confraternizações de trabalho,

Das nossas conversas, das nossas orações, das nossas idas à igreja Sara Nossa Terra,

De você me ensinar que a gente sempre devia tratar bem os rapazes mesmo quando não se está a fim deles,

Das suas broncas, dos seus NÃOS e até das nossas discussões,

Dos seus sonhos, da sua garra, da sua luta ainda maior para criar nós três depois que o papai morreu,

De irmos à churrascaria e você pedir picanha sem parar,

Da feijoada que você fazia para o Thiago e de como você gargalhava das piadas dele,

De ver você comer jabuticaba,

De ouvir você falar “Eu te amo muitão”,

E de falar pra você “Eu te amo muitão”,

Do seu choro e alegria quando casei, do seu choro e alegria quando engravidei.

Saudade IMENSA e profunda

Da sua fé
Das suas dúvidas
Da sua voz
Do seu beijo
Do seu abraço
Do seu cheiro
Do seu toque
Saudade IMENSA e profunda

De você, mãe.

P.S1: Estava aos prantos quando comecei a escrever, mas termino o texto serena e feliz. Na verdade, extremamente grata a Deus por ter vivido tantos momentos bons com você.


P.S2: Aos queridos leitores do blog: por ora, faço uma pausa nos relatos sobre a descoberta da doença da mamãe. Relembrar tudo estava me fazendo sofrer. Pode ser que um dia eu consiga contar esta história. Pode ser que não. Por enquanto, fico com as ótimas lembranças dos 31 anos que Deus permitiu que eu desfrutasse ao seu lado, mãe. 

Monday, April 08, 2013

4 - O início da descoberta


*As datas de todos os textos se referem ao ano de 2012.

A BR-060, entre Goiânia e Brasília, nunca foi tão extensa. Duas horas, duas horas e meia de percurso? Não, para mim foi simplesmente uma eternidade. De angústia. De ansiedade. De preocupação. De medo. De tensão. Era difícil controlar o pensamento.

 - Senhor, por favor, que eu possa ver a minha mãe! Senhor, permita que eu veja a minha mãe!

Eu não imaginava o que estava por vir, mas, sim, temi o pior. A madrugada não tinha sido boa. O dia anterior à viagem, 21 de março*, aliás, não foi nada aprazível. Já no meio da manhã, sobrancelhas franzidas na primeira conversa que tive por telefone com a Renata. Eu estava saindo da sala de cinegrafia da TV Brasil Central quando nos falamos pela primeira vez.

 - Vamos levar a mamãe ao psiquiatra novamente e depois ao INSS para tentar uma licença médica.

No início do mês, minha mãe tinha apresentado sinais de estresse, estafa e confusão mental. Imaginamos que poderia ser um princípio de depressão, em função de outras crises que ela já havia passado anteriormente. Mas os medicamentos prescritos pelo médico não surtiam efeito. O quadro de mamãe piorava: ela começava a ter problemas de fala, memória e coordenação motora.

- Carla, o doutor Marcelo pediu uma tomografia de crânio com urgência.

Novamente Renata me mantinha informada. Elas seguiram para o INSS; os peritos deram licença médica para mamãe. Ela realmente não estava bem.

À tarde, eu ainda na TV, tensa, preocupada, e uma nova ligação.

 - Tia Vera (irmã de minha mãe) falou com o doutor Marcelo. Parece que ele suspeita de princípio de AVC (acidente vascular cerebral). Estamos todas indo para o Hospital Santa Luzia.

Eu não acreditava. Andava de um lado para o outro no pátio interno da Agecom. AVC? Minha mãe? Como assim?

No carro, antes de engatar a primeira e seguir para casa, liguei pra Renata de novo. Eram por volta das 18 horas.

 - Ainda estamos esperando para sermos chamadas para o exame.

Gente, como assim? – pensava. A tomografia não é de emergência?

Segundos, minutos, horas se passaram. Só a minha agonia que não.

Pouco mais de 21 horas. O telefone toca. Thiago atende. Eu o observo, o semblante é sério.

 - Anhan.

 - Anhan.

 - Anhan.

 - E Renata...

 - U.T.I.

São essas as poucas palavras das quais me lembro daquele dia...

 - U.T.I.

Ú.Tê. I. Ú.Tê. I. Ú. Tê. I. Sua mãe precisa de uma Ú.Tê. I.

As letrinhas antipáticas reverberavam, sem parar, sem parar, sempararsempararsemparar na minha mente. E eu já estava aos prantos.

- Calma, Carla! Calma, Carla.

Após desligar o telefone, Thiago teve a árdua tarefa de tentar me tranquilizar.

 - O exame ficou pronto, amor. Sua mãe está com uma lesão na cabeça. Mas fique tranquila, ela está no hospital, está sendo assistida. Vai ficar tudo bem!

E nós caímos de joelho. Oramos. Clamamos.
          
Meu choro, ora intenso, ora sussurrado, não conseguia espantar meu medo. O telefone tocou novamente. E a situação, que já era insuportavelmente difícil, ficou inacreditavelmente dolorosa. Faltava uma semana para vencer o tempo de carência do plano de saúde da minha mãe. O hospital não aceitava interná-la. Para ela ficar lá, pediram R$ 10 mil.

 - A gente pega um empréstimo amanhã, Renata, a gente se vira, mas pode internar a mamãe.

Poucos minutos depois, novo telefonema.

 - Carla, estão pedindo R$ 50 mil agora. E só para começar.

Choro em Brasília. Choro em Goiânia. Choro durante o percurso Goiânia-Brasília. E a BR-060 nunca foi tão extensa.

(Continua).